burburinho

dilbert

quadrinhos por Nemo Nox

Scott Adams nasceu em 1957 e levou uma vida obscura até os trinta anos de idade. Depois de estudar Economia, trabalhou sete anos no Crocker National Bank, em San Francisco, e nove anos na Pacific Bell, em San Ramon. Em 1988, desenhou cinqüenta tiras com quadrinhos de Dilbert e Dogbert e as apresentou às grandes empresas do ramo. Foi recusado por quase todas, e algumas chegaram a sugerir que ele fosse aprender a desenhar ou fizesse parceria com alguém que soubesse. A United Media, porém, ofereceu-lhe um contrato, prontamente aceito, e o resto é história.

Dilbert foi inspirado em vários colegas de trabalho de Adams, e as primeiras tiras eram baseadas no seu dia-a-dia no Crocker National Bank e na Pacific Bell. Mostrando funcionários de grandes empresas como vítimas de gerentes incompetentes e colocando-os em situações ridículas e absurdas, a série falou diretamente ao coração de milhares de trabalhadores que se identificavam com Dilbert e seus problemas. O bonequinho sem boca foi incluído em 1996 pela revista People em sua lista das 25 personalidades mais interessantes do país, ao lado do jogador de basquete Dennis Rodman e da popstar Madonna. No ano seguinte, Dilbert apareceu na capa da revista Time, como uma das 25 figuras mais influentes dos EUA.

O sucesso, evidentemente, atraiu também muitas críticas. Dilbert foi acusado de dualidade, de ser ao mesmo tempo mascote dos funcionários e ferramenta de marketing de grandes corporações, que passaram a usá-lo em suas campanhas publicitárias. Vários críticos já apontaram que as tiras fazem humor à custa da imbecilidade dos chefes mas nunca abordam as razões desse comportamento, não dando abertura para um questionamento dos problemas reais das grandes corporações. Fica a dúvida: Dilbert colabora na conscientização dos trabalhadores sobre suas reais condições ou serve como válvula de escape alienante? Adams esquiva-se de responder com interpretações mais profundas e afirma que o objetivo das tiras é simplesmente divertir: "Minha meta não é mudar o mundo, somente ganhar algum dinheiro e fazer com que vocês riam um pouco."

Dilbert é sem dúvida um anti-herói. Mergulhado em burocracia e cercado de incompetência, seu trabalho é como uma tortura inevitável. Em contraste, seu cãozinho Dogbert é um tirano megalômano cujo maior objetivo é dominar o mundo e transformar todos os humanos em seus vassalos. E com qual destes dois personagens os leitores da tira se identificam? Por incrível que possa parecer, com Dilbert. Masoquismo ou catarse?

O universo teórico de Dilbert ultrapassou os quadrinhos pelas mãos do próprio Scott Adams. O ensaio O Princípio Dilbert nasceu como artigo para o Wall Street Journal e transformou-se depois em livro, ocupando o primeiro lugar da lista de best sellers do New York Times. O conceito básico do Princípio Dilbert é que os funcionários mais ineficazes são sistematicamente transferidos para onde podem causar menos danos: a gerência. Isto nada mais é que uma adaptação do velho Princípio de Peter (descrito no livro de mesmo nome, que no Brasil foi batizado como Todo Mundo é Incompetente Inclusive Você, de Laurence Peter), segundo o qual os funcionários capazes iriam sendo promovidos até alcançarem o seu nível de incompetência. A diferença introduzida por Adams está em outro conceito, aqui apresentado nas palavras do próprio criador de Dilbert: "As pessoas são idiotas. Inclusive eu. (...) A única diferença é que somos idiotas em áreas diferentes, em diferentes ocasiões. Por mais esperto que seja, você passa a maior parte do dia agindo feito um idiota. Essa é a premissa básica desta obra tão erudita." E agora? Você prefere ser chamado de incompetente por Peter ou de idiota por Adams?

Criticando, ironizando e satirizando as grandes corporações econômicas, o próprio Scott Adams transformou-se numa corporação. Dilbert é hoje uma marca que vale milhões e aparece em todos os tipos de produtos, de livros a software, passando por miudezas como camisetas e mouse pads. E já foi garoto-propaganda de empresas como Intel, American Airlines e Xerox. Adams admite que faz de tudo para ganhar o máximo possível, e não teme queimar o personagem: "Não dá para ficar queimado sem antes ficar obscenamente rico."

Estandarte dos funcionários oprimidos ou marionete das megacorporações, quanto a uma coisa Dilbert não deixa dúvidas: suas tiras são engraçadas, arrancando gargalhadas dos dois lados do muro. Scott Adams realmente conseguiu criar um microcosmo humorístico que é um divertido espelho do macrocosmo das grandes empresas. E é aí que reside seu valor. Querer encontrar em suas historinhas algo mais profundo que isto é bobagem. Uma bobagem que fará Scott Adams ficar ainda mais rico.


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