burburinho

o mochileiro das galáxias

livros por Nemo Nox

Douglas Adams, nascido em Cambridge, Inglaterra, em 1952, sempre teve vocação humorística. Aos onze anos, chegou mesmo a publicar duas histórias curtas na revista infantil Eagle. A fama e a fortuna, porém, demoraram a surgir.

Na adolescência, tentou seguir carreira escrevendo e representando seus próprios sketches em alguns grupos teatrais de Cambridge, mas o seu humor peculiar não era muito bem aceito. Foi quase inevitável ter cruzado com o grupo Monty Python (e as influências deste grupo em seu trabalho são inegáveis), e chegou a fazer algumas pontas na série Monty Python's Flying Circus.

Desanimado com uma carreira que mal parecia uma carreira, em 1976 Adams já pensava em desistir quando foi convidado por alguns amigos a apresentar à BBC uma idéia para uma série de rádio. Para sua surpresa, o esboço de The Hitchhiker's Guide to the Galaxy foi aprovado. Nascia a história que pularia do rádio para os livros (publicado no Brasil pela Editora Brasiliense com o título O Mochileiro das Galáxias), e dali para teatro, televisão, discos, cassetes, jogos de computador e, algum dia, também para o cinema.

Produzida por Geoffrey Perkins, a série de rádio, em seis episódios, foi um sucesso. A história era basicamente a mesma que apareceu depois nos livros. Arthur Dent, momentos antes de perder a casa e, muito pior, seu planeta natal, é salvo da cena apocalíptica por seu amigo Ford Prefect, que revela ser um alienígena visitando a Terra para escrever sobre ela num guia para viajantes interestelares, de título The Hitchhicker's Guide to the Galaxy (Guia da Galáxia para Caroneiros). Assim começam as aventuras caóticas e absurdas desta dupla, que logo se junta a Marvin, um andróide extremamente deprimido, a Zaphod Beeblebrox, um ególatra de duas cabeças, e a várias outras figuras estranhas.

Graças ao sucesso radiofônico, Adams conseguiu um contrato com a editora Pan Books para transformar a série num livro. E começaram os problemas que acabariam por influenciar irremediavelmente o estilo de The Hitchhicker's Guide to the Galaxy. Douglas Adams era simplesmente incapaz de cumprir um prazo. A data de entrega dos originais à editora já havia passado, e era impossível adiar mais. Um dia Adams recebeu um telefonema da editora dizendo que terminasse a página que estava escrevendo e um motoboy passaria para pegar tudo. E assim, sem muita revisão e sem um final que pudesse ser chamado de final, o livro foi publicado. E foi um sucesso gigantesco.

Uma segunda série radiofônica, com mais seis episódios, foi encomendada pela BBC, e Adams manteve-se fiel a si mesmo conseguindo atrasar todos os roteiros. A situação foi tão crítica que, em alguns momentos, ele escrevia numa sala o que seria gravado poucos minutos depois no estúdio ao lado. Mesmo assim, ou exatamente por causa disto, o sucesso continuou. Seguiu-se uma série de televisão, também pela BBC, que aumentou consideravelmente o público de Adams. O segundo livro era inevitável, não só para resolver o final abrupto do primeiro, mas também para capitalizar o momento positivo.

The Restaurant at the End of the Universe (O Restaurante no Fim do Universo), o segundo livro da série, sofreu do mesmo mal do primeiro. Quando o prazo para a entrega dos originais já estava estourado, Adams recebeu um aviso da editora: tinha somente quatro semanas ou o livro não sairia. Naquele momento, ele ainda nem tinha começado a escrever! Acabou trancando-se durante um mês num quarto na casa da mãe e conseguiu começar e terminar as 150 páginas. A experiência foi tão traumática que o autor chegou a declarar que não mais escreveria livros daquela série, e que estava pensando em voltar aos palcos.

Mas foi impossível fugir do sucesso, agora impulsionado por vendas nos EUA. Não havendo desta vez uma série radiofônica para servir de base, Adams foi buscar um velho roteiro que havia escrito para a série de televisão Dr. Who e que nunca chegou a ser usado. Adaptou a história para que servisse a seus estranhos personagens, recheou a trama com seu característico humor, e confeccionou Life, the Universe and Everything (A Vida, o Universo e Tudo Mais). Pela primeira vez, um livro seu não foi tão bem recebido. Os fãs estranharam o humor excessivamente caústico (Adams afirmou depois que passava por uma fase muito ruim na sua vida pessoal e que isto refletiu no livro) e os críticos estranharam a estrutura da trama (que revelava ser adapatação de material escrito para outros personagens) e acusaram Adams de autoparódia. Mesmo assim, as vendas não chegaram a decepcionar.

Segundo Adams, Life, the Universe and Everything contém os melhores e os piores trechos que já escreveu. Após a publicação, mais uma vez afirmou que não voltaria a trabalhar com aqueles temas e personagens. Na verdade, sempre disse que escrever era um processo doloroso: "Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar." Talvez tenha sido por puro masoquismo que aceitou escrever um quarto livro da série, mas certamente o tamanho do cheque oferecido pela editora fez alguma diferença. Adams já era garantia de venda.

So Long, and Thanks for All the Fish (Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes) é o quarto volume da "trilogia", e como sempre foi escrito com atraso. "Em primeiro lugar, eu não tinha muita vontade de escrever mais um livro da série. Então saí em longas viagens promocionais e depois me envolvi com a criação do jogo para computador, que tomou muito tempo. Assim que fui adiando até não poder mais e acabei tendo que escrever o livro em menos de três semanas." So Long, and Thanks for All the Fish surpreendeu e desapontou muitos fãs, por ser menos engraçado e ter menos elementos de ficção-científica que o resto da série, sendo quase uma história de amor. Parte da crítica, porém, voltou a elogiar Adams. E ele afirmou, mais uma vez, que a série estava terminada.

Alguns anos mais tarde, é claro, Adams voltou a colocar Arthur Dent e Ford Prefect no centro de suas aventuras cósmico-humorísticas em Mostly Harmless (Mormente Inofensivos), o quinto livro da série. Desta vez porém, a fórmula já parecia estar desgastada, e nem mesmo uma tentativa de salvar a Terra de ser destruída (sim, isto já havia acontecido no primeiro livro, mas tudo é possível no universo das probabilidades dimensionais) ou uma filha adolescente aparecendo do nada para surpresa de Arthur foram suficientes para criar um novo sucesso que não fosse somente para os fãs mais fiéis.

Resta agora esperar pelo filme, projeto que já tem mais de vinte anos e já contou com o envolvimento de gente como Terry Jones (de A Vida de Brian) ou Ivan Reitman (de Ghostbusters). Em sua mais recente versão, The Hitchhicker's Guide to the Galaxy seria produzido por Roger Birnbaum e dirigido por Jay Roach, para a Disney, e roteiro do próprio Douglas Adams. Infelizmente, ele morreu em 2001, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Desta vez ele não teve a oportunidade de entregar os textos com atraso.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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