burburinho

cama-de-gato

livros por Nemo Nox

Nos livros de ficção-científica, o mundo já acabou inúmeras vezes, das mais variadas formas. Este catastrofismo, porém, geralmente não é fruto dalgum prazer sádico dos autores mas sim um alerta bem-intencionado.

É o caso de Cat's Craddle (publicado no Brasil pela Editora Record como Cama-de-Gato), uma das melhores histórias apocalípticas já escritas. O autor é o consagrado Kurt Vonnegut, o mesmo de Revolução no Futuro (Player Piano) e Matadouro Cinco (Slaughterhouse Five). Publicado em 1963, Cama-de-Gato conta, em 127 minúsculos capítulos, uma intrincada história envolvendo Felix Hoenikker (um dos pais da bomba atômica), seus três filhos (um anão pintor, uma enorme clarinetista e um general de republiqueta), Bokonon (fundador de uma absurda religião, o bokononismo), e mais uma infinidade de coadjuvantes que envolvem o narrador, um jornalista empenhado em escrever sobre uma ilha caribenha nada paradisíaca chamada San Lorenzo.

O tema central, que vai surgindo aos poucos, é o gelo nove, uma substância cristalina criada em laboratório, capaz de solidificar toda a água do mundo e, conseqüentemente acabar com a vida no planeta. Vonnegut é cinicamente cruel em sua exposição da natureza humana, e desde o início, mesmo ainda antes de conhecermos a verdadeira ameaça, já pressentimos que nada de bom pode esperar os protagonistas.

Curiosamente, os dois personagens fundamentais e onipresentes em espírito durante toda a história, não se fazem presentes na ação. São como sombras pairando sobre a trama, representando dois lados distintos da humanidade. Felix Hoenikker, cientista misantropo, inventor de coisas motíferas como a bomba atômica e o gelo nove, já está morto quando o livro começa. Bokonon, filósofo nihilista, criador de uma seita cuja máxima é "viva pelas mentiras inofensivas, que o tornam corajoso, bondoso, saudável e feliz", é uma figura elusiva só vista no último capítulo. Mesmo assim, ambos são forças determinantes em Cama-de-Gato, cada um a seu modo peculiar.

Não há lugar para otimismo em Cama-de-Gato. Mesmo assim, é um livro divertido. Humor negro, é claro. Mas Vonnegut tem uma habilidade ímpar para mostrar o rídiculo de posturas e comportamentos. É com um sorriso nos lábios que reconhecemos figuras típicas e caricatas como a secretária que faz questão de afirmar a sua ignorância ou a senhora que se delicia ao encontrar conterrâneos por todos os lados.

Vonnegut satiriza impiedosamente todos os temas tocados pela história, como se fosse seu próprio gelo nove solidificando tudo pelo caminho. A ciência e a religião são os alvos preferidos, mas nada escapa: casamento, patriotismo, sexo, política... E é aí que está o brilhantismo do bokononismo - num mundo que não faz sentido, habitado por pessoas que não fazem sentido, somente uma religião assumidamente falsa e de rituais absurdos pode fazer sentido.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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