burburinho

the time machine

cinema por Nemo Nox

Em 1898, H.G. Wells escreve o clássico da ficção-científica A Máquina do Tempo. Mais de um século depois, seu bisneto Simon Wells dirige uma versão cinematográfica da obra, The Time Machine (EUA, 2002). Homenagem familiar ou herança intelectual? Infelizmente, nem uma coisa, nem outra. A expressão mais adequada seria jogada de marketing.

A única coisa que qualificava Simon Wells para dirigir um projeto de muitos milhões de dólares como este era o sobrenome. Apesar do seu currículo restrito à co-direção de desenhos animados, como An American Tail: Fievel Goes West ou The Prince of Egypt, a DreamWorks SKG e a Warner Bros resolveram aproveitar assim mesmo a oportunidade de juntar bisavô e bisneto. O desastre não tardou, e The Time Machine precisou de um novo diretor no meio das filmagens. A justificativa oficial para a saída de Wells, substituído por Gore Verbinski (de The Mexican), foi "exaustão extrema". O mal, porém, já estava feito, como se pode ver claramente na narrativa claudicante do filme. Logo na primeira cena, para não deixar dúvidas sobre a falta de rumo, somos brindados com um plano-seqüência onde uma câmara subjetiva desce as escadas de uma escola, provocando reações dos alunos e criando a expectativa sobre quem estaria descendo. Mas a ação é imediatamente transferida para dentro de uma sala de aulas, onde vemos o protagonista, ignorando completamente a isca lançada segundos antes.

Curiosamente, a direção não é a pior coisa em The Time Machine. A tentativa de atualizar a trama (que, por si só, é uma bobagem, já que a história se passa no passado e no futuro, nunca no presente) é tão desastrada que chega a ser cômica. Se alguns poucos elementos visuais são interessantes (a aldeia pendurada dos Eloi ou a própria máquina do tempo, por exemplo), quase todo o resto de The Time Machine é desastroso: narrativa recheada de coincidências forçadas e piscadas de olho desnecessárias, péssima caracterização dos vilões (os Morlocks, liderados por um Jeremy Irons vestido de roqueiro albino) e seqüências de ação menos verossímeis que as lutas de Batman e Robin no seriado dos anos sessenta.

Em 1960, George Pal fez a sua versão cinematográfica da história de Wells, com Rod Taylor no papel principal. Ali, a civilização futura dos Eloi era formada por gente loira e por edifícios de inspiração greco-romana. Algum sentimento de culpa politicamente correto fez com que no novo filme os Eloi passassem a ser uma tribo afro-new-age. Num contraste exemplar, o protagonista do original queria conhecer o futuro por razões sócio-políticas (o livro mostra o desencanto de H.G. Wells com a sociedade da época) mas o novo herói (Guy Pearce, de Memento e L.A. Confidential) é movido por motivos individualistas (sua noiva morreu e ele quer alterar o passado). Mudando o enredo e o foco temático, The Time Machine nem merece ser chamado de adaptação. Apesar de ter um Wells na direção.


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