burburinho

city of glass

livros por Nemo Nox

O primeiro capítulo de City of Glass (Cidade de Vidro, a história que abre a Trilogia de New York, de Paul Auster, editada no Brasil pela Cia. das Letras) é um delicioso labirinto de identidades.

Daniel Quinn é um escritor que, desde a morte da esposa e do filho, passou a usar o pseudônimo de William Wilson para assinar seus livros policiais, onde o protagonista chama-se Max Work. O que dá início à trama é um telefonema que Quinn recebe, alguém querendo falar com o detetive particular Paul Auster. Está armada a divertida confusão. Quinn, que se esconde por trás do nome de Wilson, resolve dizer que é Auster, para poder imitar seu personagem Work. Sendo o próprio Auster o autor da história, Quinn também é seu personagem. Há ainda um narrador sem nome, que nem é Auster, nem Quinn, nem Wilson, nem mesmo Work. E Auster (o escritor, não o personagem) aproveita para brincar também com duplos sentidos. A tradução de work é trabalho, e o personagem é realmente o trabalho de Quinn, seu refúgio da tragédia familiar, o que provoca frases ambíguas como "pouco a pouco Work tornou-se uma presença na vida de Quinn, seu irmão interior, seu companheiro de solidão" ("little by little, Work had become a presence in Quinn's life, his interior brother, his comrade in solitude"). Mas isto é só o começo...

Logo no capítulo seguinte, City of Glass traz a brilhante narrativa de Peter Stillman, um homem que passou a infância trancafiado num quarto escuro sem contato humano e teve que reaprender a falar depois de solto. Seu discurso é uma reinvenção da linguagem com palavras redescobertas mas com uma estrutura toda própria (com o já clássico "I am Peter Stillman. That is not my real name.") e por vezes com palavras inventadas ("Wimble click crumblechaw beloo."). Stillman contrata Quinn (que se finge de Auster) para encontrar seu pai, que também se chama Peter Stillman, recém-saído da penitenciária e um potencial perigo pra o próprio filho.

O velho Stillman revela-se um mentecapto estudioso da linguagem, tendo várias teorias sobre como as palavras podem levar a Deus ou como reinventando/redescobrindo a língua poderíamos encontrar a salvação. A Torre de Babel, claro, é abundantemente citada. City of Glass é definitivamente um livro sobre a linguagem, tanto na forma como no conteúdo.

As surpresas ainda não terminaram, e como numa verdadeira trama policial Auster nos conduz por intrincados e insuspeitos caminhos. No décimo capítulo aparece ele mesmo como personagem, acentuando a confusão, pois afinal não é o detetive anunciado e sim um simples escritor. Mas mesmo o livro que diz estar escrevendo é uma trama policialesca por si só, apesar de se tratar de um ensaio sobre literatura, e sugere uma teoria interessantíssima para explicar quem foi o verdadeiro autor de Dom Quixote. Mais uma vez, um caso de identidades trocadas e sobrepostas.

City of Glass, publicado pela primeira vez em 1985, é um dos mais interessantes e inteligentes livros escritos nas últimas décadas, um quebra-cabeças imperdível para quem aprecia literatura e gosta de pensar sobre o que lê.


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