burburinho

dragonfly

cinema por Nemo Nox

Em 1991, Kevin Costner recebeu o Oscar de melhor filme e de melhor diretor (além de ter sido indicado também para o de melhor ator) por Dances with Wolves. Dez anos depois, recusou participar da continuação do filme alegando que, apesar de ter gostado do roteiro, tem que seguir o caminho que sente ser o certo para ele.

E que caminho seria esse? Depois das estatuetas, sua filmografia tem sido no mínimo irregular, com participações nos interessantes JFK e A Perfect World mas também nos questionáveis Robin Hood, The Bodyguard e Message in a Bottle, entre outros. Seu mais recente trabalho, Dragonfly, não se compara positivamente a nenhum deles, nem mesmo ao superflop Waterworld. Dirigido por Tom Shadyac (de Ace Ventura: Pet Detective e Patch Adams), Dragonfly (EUA, 2002) é um filme com uma missão: mostrar aos céticos como o mundo do além não só é real como pode ter influência determinante na nossa vida. E falha grosseiramente. A história é construída de forma a mostrar como o médico Joe Darrow (Costner) parece estar enlouquecendo depois de ter perdido a esposa (Susanna Thompson, da série de tv Once and Again). A narrativa até seria engenhosa se o personagem estivesse realmente perdendo a noção da realidade, mas o filme trilha um caminho diferente e mostra um protagonista que recebe insistentes mensagens do mundo dos mortos, todas de uma ineficiência extremamente conveniente para manter um certo mistério sobre o que a defunta está tentando dizer.

Os personagens são modelados na medida certa para servirem somente como estereótipos. Darrow começa como médico cético, explicando a uma suicida que não existe outro mundo além deste que conhecemos. Apesar disso, das suas convicções filosóficas e do seu treinamento científico, converte-se rapidamente à crença de uma vida post mortem sem considerar seriamente qualquer outra possibilidade (e o roteiro não permite desvios em seu caminho). À sua volta, personagens suspeitamente emblemáticos. A vizinha cética (Kathy Bates, de Misery), que o tenta chamar para a realidade, é uma advogada lésbica. A pesquisadora do além (Linda Hunt, de The Year of Living Dangerously), que oferece teorias religiosas sem qualquer migalha de evidência, é uma freira. Tão sutil como cartas marcadas num teste de percepção extra-sensorial.

Poder-se-ia argumentar que o que vale é o espetáculo, e que os mortos mandando mensagens para os vivos têm aqui somente papel dramático, como um vampiro sedutor num filme de horror ou um vilão mascarado num filme de ficção-científica. A grande diferença, porém, mesmo depois de descontada a debilidade de Dragonfly como drama, mistério ou aventura, é que a maioria da população do planeta não acredita em Drácula ou em Darth Vader. Mas muitos ainda se iludem com promessas de uma vida melhor após a morte, conformando-se desnecessariamente com suas condições atuais. Dragonfly é mais uma contribuição para este mito.


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