burburinho

conversa com kevin smith

entrevista por Nemo Nox

D iretor de filmes como Clerks, Mallrats, Chasing Amy, Dogma e Jay and Silent Bob Strike Back. Roteirista de quadrinhos como Homem-Aranha e Arqueiro Verde. Kevin Smith tem uma legião de fãs, que ao mesmo tempo o admiram e o vêem como um igual. Ele é um simpático fanboy que deu certo.

Burburinho - Como vão os preparativos para Jersey Girl?
Kevin - Começamos a filmar em julho. Já estão confirmados o Ben Affleck e a Julia Stiles, mas ainda não temos a menina para o papel do título. Estou procurando uma desconhecida, claro, nem existem atrizes infantis conhecidas além daquela dos comerciais da Pepsi.

Burburinho - As filmagens se atrasaram por causa de Daredevil?
Kevin - Não, mas o Ben Affleck achava que sim. Ele já tinha visto as primeiras páginas do roteiro de Jersey Girl e estava entusiasmado para fazer o filme. O Ben diz que quer voltar a trabalhar num projeto pequeno como foi Chasing Amy, tranqüilo e sem muita publicidade, só o trabalho importando, e esta era uma ótima oportunidade. Depois, quando ele me telefonou para contar que lhe tinham oferecido o papel principal em Daredevil, eu dei os parabéns e perguntei quando eram as filmagens. Ele disse que seriam em abril e eu, me fazendo de espantado, disse que não podia ser, porque em abril íamos filmar Jersey Girl. O que ele não sabia era que eu nem tinha o roteiro pronto e seria impossível filmar em abril. Mas eu o deixei sofrer durante uma semana, tendo que se decidir entre um filme e outro, só depois contei que não havia conflito de calendários. Eu só queria ver como ele ia reagir. Eu achei engraçado, ele não.

Burburinho - Como começaram os desentendimentos entre Tim Burton e você?
Kevin - Não sei bem. Quando vi o final de Planet of the Apes fiquei boquiaberto, era igualzinho ao final de uma história em quadrinhos que eu tinha publicado, Jay & Silent Bob. Quando disse isso nos jornais Tim Burton ficou furioso e fez uma declaração oficial dizendo que, como todos que o conhecem deveriam saber, ele nem lê histórias em quadrinhos (o que explica o trabalho dele em Batman). E que nunca leria algo criado por mim. Acho até que vou usar isso como material de divulgação. Fica bem: "Tim Burton não leria nada criado por Kevin Smith!"

Burburinho - Você sofreu algum ataque pessoal por causa de Dogma?
Kevin - No dia da estréia, jogaram um pedra numa janela da minha casa, mas eu consegui convencer minha mulher que tinha sido só a pressão das paredes se ajustando. Fora isso, não aconteceu nada.

Burburinho - E os protestos?
Kevin - Quando o filme passou em Eatontown, onde eu moro, anunciaram que mil e quinhentas pessoas iriam fazer uma manifestação na porta do cinema. Eu pensei "Meu deus, aqui em casa? Mil pessoas em New York é normal, mas aqui? Tenho que ver isso!" Chamei meu amigo Brian Johnson para ir comigo, e fizemos uns cartazes inpirados nos protestos de New York, dizendo "To Hell With Dogma" e "Dogma is Dog Shit". Nós caprichamos, colorimos as letras, fizemos contornos e tal. Aí chegamos lá e em vez de mil e quinhentas pessoas encontramos umas quinze, todas acima dos cinqüenta ou sessenta anos. Mesmo assim fomos lá e nos juntamos ao protesto, até que uma senhora veio me dizer que eu não podia usar aquele cartaz. "Como assim?", eu perguntei. "Você não pode usar essa palavra na frente do Nosso Senhor." Ela sugeriu que eu apagasse a última palavra, mas expliquei que só "Dogma is Dog" não ia fazer muito sentido. Então ela disse para apagar só as últimas letras, deixando "Dogma is Dog Sh". As pessoas entenderiam. O melhor foi quando chegou o pessoal da televisão local. A entrevistadora começou a olhar pra mim, olhava pra prancheta que trazia, olhava pra mim de novo, até que veio me perguntar: "Você é ele? O diretor?" Respondi bem tranqüilo que não, que já estava acostumado a ser confundido com ele. Então ela quis me entrevistar, e eu concordei. Me perguntou porque eu estava ali, e respondi que tinham me dito que o filme não prestava. "Mas você não viu o filme?" Não, eles me disseram que não presta. "Você não vai assistir?" Não, eu não pagaria pra ver o filme (o que é verdade, não pago mesmo, posso ver os meus filmes quando quiser sem pagar). "E você viu outros filmes do diretor?" Vi, gostei muito de Clerks. Para terminar, ela perguntou o meu nome e eu disse que era Brian Johnson. À noite passou na televisão. Foi muito divertido receber os telefonemas dos amigos depois.

Burburinho - Que filme você faria se tivesse um orçamento ilimitado?
Kevin - Eu não tenho assim um projeto grandioso com que sonho sempre. Me contento em fazer filmes modestos, com gente amiga e orçamentos pequenos. Quando você tem um orçamento enorme, tem que assumir uma série de compromissos que não combinam comigo. Prefiro gastar pouco e ter liberdade de fazer o filme que eu quiser. Se o público gosta, ótimo. Se não gosta, não se perde muito, no próximo ano eu tento de novo.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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