burburinho

halloween

cinema por Nemo Nox

Um lunático com uma faca na mão. O resto, é questão de marcar a data. Sim, a data. Se for 31 de dezembro. o filme é Reveillon Maldito (New Year's Evil, 1980), de Emmett Alson. Se for 13 de fevereiro, trata-se de Dia dos Namorados Macabro (My Bloody Valentine, 1981), de George Mihalka. Se o dia é sexta-feira, 13 de qualquer mês, são vários longas-metragens sob o título genérico de Sexta-Feira 13 (Friday The 13th), o primeiro dirigido por Sean Cunningham em 1980. Certamente haverá títulos do gênero para preencher todo um calendário, mas a data mais importante, e também a mais provocante, que aparentemente deu origem a toda esta onda de assassinos psicopatas das telas, é Halloween, o famoso dia das bruxas norte-americano transformado em filme em 1978 por um dos nomes mais ativos do cinema fantástico, John Carpenter.

A história de Halloween é simples. Um prólogo, passado em 1963, nos mostra, através de um longo e bem elaborado plano-seqüência em câmara subjetiva (onde o espectador vê as coisas do mesmo ponto de vista de um dos personagens), como o garoto Michael Myers, de seis anos de idade, assassinou sua irmã mais velha com várias facadas na noite das bruxas. A ação salta então para 1978, quando Michael foge do Hospital Estatal de lllinois, onde esteve internado durante quinze anos sem dizer uma só palavra, e volta para sua cidade natal. É novamente o dia das bruxas.

Luís Fernando Veríssimo escreveu certa vez que "para ver Cidadão Kane, hoje, com o deslumbramento que ele merece, você precisa fingir que não viu mais nenhum filrne parecido com ele feito depois". Guardadas as proporções, o mesmo vale para Halloween: para poder desfrutar de seus lances criativos, é necessário esquecer toda a horda de imitadores que vieram na esteira do seu sucesso.

John Carpenter realizou em Halloween um inteligente trabalho de compilação cinematográfica, estabelecendo um modelo de assassino alucinado que seria utilizado em dezenas de filmes do gênero. A máscara (possivelmente inspirada no Fantasma da Ópera), o ruído da respiração (de 2001 - Uma Odisséia No Espaço), a trilha sonora marcando a presença do vilão (de Tubarão), são apenas alguns dos elementos que compõem a aura de terror de Michael Myers.

As citações não param por aí. Existe a referência óbvia e constante a Psicose, graças não só à relativa proximidade do tema como também à presença no elenco de Jamie Lee Curtis, filha de Janet Leigh, a vítima de Norman Bates no filme de Hitchcock. A televisão também funciona muito bem para lembrar velhos filmes (entre eles, The Thing, de Howard Hawks, que Carpenter refilmaria em 1982). Numa cena, Jamie Lee Curtis olha através da janela procurando pelo bicho-papão que um garoto afirma ter visto lá fora, enquanto, da tv, vem o sugestivo diálogo do filme Forbidden Planet:

-Não há nada lá fora, soldado.
-Claro que há!

Obviamente, para fazer um filme, não basta apenas uma história simples e algumas citações. Carpenter criou também uma forte estrutura interna para Halloween, segundo a qual, a partir da crença de outras pessoas, um mortal maníaco acaba tornando-se um ser sobrenatural. O médico garante que Michael não é humano, o garoto acredita que o homicida é o próprio bicho-papão, Jamie sabe que o destino não muda. É numa aula de literatura que ela, apesar de não haver prestado atenção à pergunta da professora, responde corretamente que, segundo Samuels, o autor em questão, o destino é como uma verdade elemental básica, tão real como a terra, o ar, o fogo ou a água. Assim, alimentado por tanta energia, Michael Meyers termina transformando-se na própria imagem indestrutível do mal. E haveria dia mais propício que o Halloween para isto acontecer?

Infelizmente, existe um forte lado conservador e moralista em Halloween. Por que motivo as vítimas de Michael estavam a caminho de ou haviam recém concluído um ato sexual? Por que escapam de sua insana fúria apenas a garota pura e as crianças? Também esta face de anjo vingador estará presente nos vilões matadores de outros filmes, principalmente os da série Sexta-Feira 13, o que serviu para que o gênero fosse apropriadamente batizado de tits and blood.

John Carpenter viria a realizar, mais tarde, filmes bem melhores, como Fuga de Nova lorque (Escape From New York, 1981) ou Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982). Mas, para o aficcionado do fantástico ou para o simples apreciador de cinema, Halloween é sempre um exemplo interessante de como um bom cineasta começa uma carreira. Um lunático com uma câmara na mão.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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