burburinho

neuromancer

livros por Nemo Nox

William Gibson é freqüentemente acusado de ter cunhado um termo (cyberspace) e lançado um subgênero literário (cyberpunk), tudo isto em seu livro de estréia, Neuromancer, publicado em 1984. Pode-se questionar estas afirmativas dizendo que já se falava em ciberespaço quando Gibson colocou a idéia no papel, ou que a literatura ciberpunk tem outros pioneiros, como por exemplo Bruce Sterling. Impossível negar, porém, que Neuromancer é um marco da ficção-científica, e os importantes prêmios conquistados pelo livro (Hugo Award, Nebula Award e Philipp K. Dick Memorial Award) são prova disto.

Neuromancer é a história de Henry Dorsett Case, um hacker do futuro que usa sofisticado equipamento para penetrar no ciberespaço e roubar dados valiosos. O cyberspace gibsoniano é uma região virtual tridimensional onde praticamente toda a informação do planeta está reunida, à disposição de quem souber encontrá-la e conseguir ultrapassar as barreiras de segurança.

O que poderia ser um paraíso tecnólogico do futuro, com computadores controlando todos os problemas e zelando pelo bem-estar dos cidadãos, em Neuromancer é exatamente o oposto. Gibson concentra-se em tudo de nefasto que os assombrosos avanços podem trazer - megacorporações substituem a soberania dos governos nacionais, gerando megacorrupção, megadecadência social e megadestruição das relações interpessoais. Fora do esquema oficial permitido pelos donos do poder, só resta refugiar-se no comportamento cyberpunk, cínico e cético até a medula óssea, ainda que seja uma medula artificial e transplantada.

A história começa no Japão, onde Case encontra Molly, uma guarda-costas com implantes biônicos (como olhos artificiais e lâminas mortíferas nas unhas), que o contrata, em nome de um empregador misterioso, para ultrapassar as defesas de um poderoso sistema de inteligência artificial. Sempre numa prosa alucinada, a ação transfere-se sucessivamente para os EUA, para uma colônia orbital de rastafaris anarquistas, e para uma estação espacial tecnologicamente paradisíaca, onde há um climax numa mansão bilionária de fazer a residência de Bill Gates parecer uma reles choupana.

Como numa gravura de Escher vista por um software drogado, nada em Neuromancer é o que parece ser. Mortos reaparecem em corpos virtuais, programas de computador possuem personalidade própria, seres humanos agem como autômatos. E Case navega neste universo caótico com a desenvoltura e a amargura de um Sam Spade cibernauta. Que mais resta para alguém condenado a contemplar um céu "da cor da televisão sintonizada num canal morto"?


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