burburinho

colo meu ouvido no radinho

miscelânea por Nemo Nox

Desbravar a selva das rádios FM brasileiras requer alguma coragem auditiva, mas pode ser uma experiência instrutiva. O audiófilo que sobreviver aos ataques sonoros promovidos pelos monstros massificadores guardará para sempre as cicatrizes musicais da aventura.

A praga número um a massacrar os pobres ouvintes são os locutores com excesso de entusiasmo. Como se tivessem injetado cafeína na veia, falam em ritmo de final da copa do mundo de futebol. Alguns eventos realmente excitantes, como o lançamento de um disco que soa rigorosamente igual a todos os outros da programação, merecem destaque vocal, e a narração ultrapassa em decibéis e emoção à da cobrança do último pênalti do último campeonato de todos os tempos. Após algumas horas ouvindo um locutor destes, é preciso tomar um calmante.

Certas estações de FM se especializam de tal forma que tocam uma única música durante todo o dia. Muda o título, algumas vezes muda a letra, mas garanto que é a mesma música.

Na vertente clubber, também chamada de bate-estaca pelos menos simpáticos à causa, ou monopolisticamente de dance music pelos adeptos (como se não pudéssemos dançar em outros ritmos, da valsa ao twist), entra música e sai música e só ficamos sabendo das trocas porque o locutor avisa. Ninguém acredita, mas ele fica dizendo uns nomes (que também são todos parecidos) para manter a ilusão de variedade.

Outra vertente também muito popular em algumas rádios é a chamada música sertaneja, que há muito tempo deixou de ser sertaneja para mergulhar de cabeça na breguice pseudo-romântica. Aqui por vezes a música muda, mas o que não muda é quem canta. Apesar dos locutores insistirem que este "sucesso" é de uma dupla e aquele "hit" é de outra dupla, eu não me deixo enganar: aquelas vozes de taquara rachada são todas dos mesmos dois sujeitinhos, que dublam todos os sertanejos da FM.

Ouvindo certas estações com atenção, é possível chegar a algumas conclusões sobre o que está do outro lado das ondas sonoras. Uma coisa fácil de inferir é que todas as rádios contam com instalações minúsculas, sem espaço para armazenar discos. Pois apesar de transmitirem sem pausa, tocam sempre os mesmos CDs. E quando surge uma cançãozinha nova na programação, é preciso abrir espaço para o novo disco jogando fora um dos antigos.

O equipamento usado nas rádios também é com certeza bem diferente do que temos em casa. Porque quando ouvimos um CD temos acesso a todas as faixas e podemos escolher que músicas tocar. Nas FMs eles devem possuir algum mecanismo que só permite usar uma música por disco. Se não fosse assim, por que tocariam quarenta vezes por dia a mesma canção sem nunca aproveitar outros trabalhos do artista de que parecem gostar tanto?

Depois de muito vasculhar, acabei encontrando, na curva do dial, uma rádio FM com programação razoável. Outro dia, entrei num táxi onde tocava uma irritante música pseudo-sertaneja. Tentando resguardar a saúde dos meus ouvidos, pedi para mudar de estação e o simpático motorista concordou. Quando achei a tal rádio, veio logo o comentário: "essa não, só toca coisa desconhecida". Pois é, parece que as rádios são assim porque é assim que os ouvintes as querem.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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