burburinho

vanilla sky

cinema por Nemo Nox

Colocar um sonho num roteiro de cinema geralmente é como colocar um lálálá numa música: acrescenta em tempo mas não em conteúdo. Muitas vezes, a justificativa claudicante para entrar no mundo dos sonhos é tentar explicar melhor algum personagem através do mergulho direto no seu subconsciente. Em casos mais extremos, temos o famoso e frustrante despertar final mostrando que toda a história era apenas um sonho. As melhores experiências envolvendo filmes e sonhos são certamente as que fazem do onirismo seu próprio tema, como pretendiam os surrealistas, e os bons exemplos vão do clássico Un Chien Andalou (França, 1929) de Buñuel e Dalí ao recente Mulholland Drive (EUA, 2001) de Lynch. Numa vertente paralela, o diretor Cameron Crowe (de Jerry Maguire e Almost Famous) explora o sonho ao mesmo tempo como mistério, ficção-científica e metalinguagem, em Vanilla Sky (EUA, 2001).

Baseado no filme espanhol Abre Los Ojos, de Alejandro Amenábar, Vanilla Sky é mais uma reinterpretação que uma refilmagem. Cameron Crowe procurou usar a mesma história para abordar suas próprias obsessões. E fez isso a convite do produtor e protagonista do filme, ninguém menos que Tom Cruise (que já havia trabalhado com Cameron em Jerry Maguire), dono dos direitos da adaptação estadunidense. Também no elenco, Penélope Cruz (de Todo sobre mi madre e All the Pretty Horses, interpretando o mesmo papel que fez no original), Cameron Diaz (de Charlie's Angels e Being John Malkovich), Kurt Russell (de Soldier e Escape from New York) e Jason Lee (de Chasing Amy e Dogma, e que também já trabalhou com Crowe em Almost Famous).

David Aames (Tom Cruise) parece ter a vida perfeita. Herdeiro milionário, bonitão, cercado de mulheres, despreocupado. As coisas ficam ainda melhores quando inicia o romance com uma bela bailarina espanhola, Sofia Serrano (Penélope Cruz). Quem não gosta disso é Julie Gianni (Cameron Diaz), com quem David tem eventuais encontros sexuais. Desesperada com a situação, ela joga seu carro do alto de um viaduto, tentando unir-se na morte com seu amante. David escapa do acidente, mas fica completamente desfigurado. Só isto já poderia ser um filme completo, mas é somente a introdução de Vanilla Sky. A partir daqui começa um percurso misterioso com personagens entrando e saindo da trama e deixando o espectador como quem tenta juntar as peças de um quebra-cabeças mas sabe que ainda não tem todas elas.

Sem elementos suficientes para desvendar o mistério, as hipóteses surgem e são descartadas com rapidez. Loucura? Conspiração? Sonho? Drogas? Quando as últimas peças do puzzle são fornecidas, numa cena talvez demasiadamente didática, e podemos vislumbrar o cenário completo, incluindo o céu impressionista do título, não nos sentimos enganados nem surpresos. Fica claro então que Cameron Crowe se interessa mais pelas possibilidades e pela reflexão que pelo truque barato e sensacionalista. O que ele sugere, simplesmente, é o que ouvimos na primeira frase do filme: "abra os seus olhos".


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