burburinho

behind enemy lines

cinema por Nemo Nox

Alguns roteiros bons sobrevivem a uma má escolha de elenco. Alguns roteiros ruins sobrevivem graças a um bom ator na liderança. Mas junte um roteiro fraco a um protagonista sem carisma e o resultado será sempre claudicante. É exatamente isto que acontece em Behind Enemy Lines (EUA, 2001), filme de estréia de John Moore.

A história é quase banal. Num vôo de reconhecimento sobre a Bósnia, o tenente Chris Burnett (Owen Wilson, de Shanghai Noon e Armageddon) vê mais do que deveria e se transforma em alvo dos sérvios. Com o avião abatido, ele passa a ser caçado em território inimigo. Seu superior, o almirante Leslie McMahon Reigart (Gene Hackman, de Enemy of the State e The French Connection), tem então que decidir entre resgatar "seu menino" (ele insiste em se referir aos subordinados como "my boys"), arriscando um incidente internacional, ou deixá-lo à própria sorte, preservando a paz precária na região.

Quem indicou Owen Wilson para o papel foi o próprio Gene Hackman, impressionado com sua atuação em Shanghai Noon. A decisão não deve ter sido simples, já que exigiu muitas alterações no roteiro para tornar verossímil o perfil do personagem. Sem o porte de um Arnold Schwarzenegger ou o carisma de um Bruce Willis, Wilson não é exatamente um herói de filmes de ação. Os primeiros esboços, feitos por veteranos do gênero como Jim & John Thomas (Predator), John Milius (Red Dawn) e Mark Rosner (The Rock), previam um protagonista com carga bem maior de testosterona. Com a contratação de Wilson, o personagem não só deixou de ser o piloto para ser o navegador como também adotou uma atitude mais blasé e uma motivação menos patriótica.

O maior problema do filme é que o espectador dificilmente se identificará com o soldadinho que viu o que não deveria ter visto e se transformou em alvo de primitivos pistoleiros balcânicos, não só por sua natural falta de empatia (Owen Wilson pode funcionar bem fazendo comentários irônicos em comédias, mas como herói milico deixa muito a desejar) como também pela quase caricaturização de tudo que o cerca. A seqüência da derrubada do avião é muito boa, mas todo o resto soa extremamente falso, das brincadeiras com bolas de futebol americano no convés do porta-aviões aos bósnios fãs de Elvis Presley e Ice Cube. Mesmo bons achados visuais, como a estátua do anjo de asa partida, são levados a extremos desnecessários e piegas. Só mesmo os mais adeptos a patriotadas, que vibram com qualquer bípede uniformizado, conseguirão encontrar algum encanto em Behind Enemy Lines.


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