burburinho

com homens e livros

livros por Nemo Nox

Bom serviço nunca foi algo fácil de encontrar no comércio brasileiro. Pode até haver boa vontade, mas os salários baixos e a falta de treinamento parecem ultrapassar qualquer balconista sorridente. Quando não entendemos muito do assunto, podemos até nem perceber o despreparo dos vendedores. Mas quando conhecemos o que estamos comprando, pode ser doloroso. Como sou irrecuperável explorador de livrarias e lojas de discos, acabo testemunhando enormes barbaridades.

A primeira que me vem à mente passou-se numa grande loja de CDs, onde eu inocentemente vasculhava a seção de música erudita. Entra um cliente e pergunta à vendedora: "Vocês têm o Concerto 1812 de Tchaikovsky?" Referia-se, evidentemente, à famosa obra alusiva ao ano em que Napoleão foi forçado a se retirar da Rússia. A desavisada vendedora, porém, visivelmente aborrecida, respondeu: "E o senhor acha que eu conheço os discos pelo número de catálogo?"

Em livrarias, costuma a ser ainda pior. Já presenciei um diálogo inacreditável em que a cliente perguntava "Vocês têm A Volta ao Mundo em Oitenta Dias?" e o prestimoso vendedor respondia com outra pergunta: "Qual é o autor?" Como, qual é o autor? Não é preciso trabalhar numa livraria para saber que é uma das mais famosas obras de Jules Verne. Será que nem o filme com o David Niven e o Cantinflas ele viu? Ao menos não mandou a senhora procurar na seção de livros de viagem.

Aliás, a forma com que os livros estão classificados nas estantes diz muito sobre uma livraria. Muitas vezes já vi Crime e Castigo, de Dostoievsky, na seção de Direito. Ou O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, na seção de Esoterismo. Uma que custei a entender foi ter encontrado A Arte de Amar, do poeta latino Ovídio, entre os livros de cinema e televisão. Acho que, em vez de A Arte de Amar - Ovídio, devem ter lido A Arte de Amar o Vídeo.

A culpa é dos vendedores, desprovidos de um mínimo de cultura ou treinamento para a função que querem desempenhar? Ou de quem os contratou, oferecendo salários tão baixos que só atraem profissionais despreparados? Ou do nosso sistema sócio-econômico-cultural como um todo, herdeiro de séculos de descaso e exploração? Para ler sobre como chegamos a isto, uma boa recomendação seria Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda. Mas cuidado ao procurar o livro, pode estar escondido na seção de botânica da livraria.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.