burburinho

conversa com luciana abait

entrevista por Nemo Nox

Ela é argentina, mas mudou-se para os EUA e agora é uma das mais populares artistas residentes do ArtCenter de Miami Beach, uma instituição que oferece, entre outras coisas, estúdios abertos onde os artistas podem trabalhar e o público pode observar.

Burburinho - Como você se tornou uma artista residente do ArtCenter de Miami Beach?
Luciana - Foi em 1988. Cheguei em Miami e queria entrar em contato com a comunidade artística. Tive que passar por um processo de seleção, no qual apresentei vinte diapositivos, meu currículo, meus objetivos, material da mídia. Um grupo de críticos de arte, curadores e colecionadores, que se reúne quatro vezes por ano, me escolheu e assim me tornei artista residente do ArtCenter.

Burburinho - O que mudou na sua arte desde que começou a trabalhar no seu novo estúdio aqui?
Luciana - Posso dizer que depois do ArtCenter meu trabalho ganhou uma nova dimensão. Minha arte já foi vista por milhares de pessoas que visitam este lugar, alguns são simples espectadores, outros são pessoas muito influentes no mundo das artes. Fui chamada para um trabalho importante para uma empresa de Hong Kong e depois fui convidada a ir lá para uma exposição. O coordenador visual da Neiman Marcus também viu meu trabalho e fez uma encomenda. Muitas galerias de arte me contataram depois de ver meus quadros aqui, e estou trabalhando com duas delas, uma em Nashville, outra em Chicago. Em relação ao conteúdo do meu trabalho, é difícil dizer se fui influenciada. Acho que a cidade e a paisagem de Miami foram uma forte influência.

Burburinho - Como é trabalhar num estúdio aberto, com pessoas olhando e interrompendo?
Luciana - Felizmente, meu estúdio tem muita visibilidade mas ao mesmo tempo tem privacidade. A porta está sempre aberta quando não estou pintando. Aí fecho a porta e coloco um cartaz dizendo "trabalhando lá dentro, por favor bata na porta". Não gosto que fiquem me olhando enquanto trabalho. As pessoas adoram ver artistas trabalhando, mas isso me deixa desconfortável. A pintura é um processo muito íntimo e privado para mim. Não gosto de me sentir como um animal num jardim zoológico com pessoas espiando a todo momento. Se batem na minha porta, estou sempre à disposição para deixá-los entrar e ver os meus quadros. O ArtCenter foi criado especificamente para que a comunidade possa interagir com os artistas, de forma a aproximar o grande público da arte. Também é ótimo para mim como artista ver como as pessoas reagem ao meu trabalho e ouvir seus comentários.

Burburinho - Seus quadros não mostram pessoas mas sugerem sua presença. Os salva-vidas, as cadeiras vazias... Onde está todo mundo?
Luciana - Meus temas são a presença e a ausência de pessoas. Os quadros são ambíguos, as cadeiras e camas estão vazias, o que pode ser interpretado de duas formas: as pessoas foram embora ou as pessoas vão chegar e ocupar as cadeiras e camas. Não tenho a resposta a essa pergunta, se as pessoas já foram ou se ainda não chegaram. Os espectadores têm um papel vital no meu trabalho. Eles é que vão decidir o que aconteceu ou vai acontecer.

Burburinho - Numa série você tem cadeiras e escadas em lugares fechados. Em outra você tem amplos horizontes marinhos. Apesar da primeira sugerir claustrofobia e da segunda sugerir agorafobia, ambas parecem interligadas. Você sente o mesmo quando está trabalhando nelas?
Luciana - Que interpretação interessante! Basicamente, o tema do meu trabalho é presença e ausência. Os objetos que pinto estão sempre isolados e suas sombras são as únicas companhias. Meus primeiros quadros eram os quartos fechados, mas depois de morar em Miami por algum tempo comecei a introduzir campos verdejantes e depois da minha viagem a Hong Kong comecei a série com água. Esses ambientes diferentes se conectam no sentido em que mostram a universalidade e ubiqüidade dos sentimentos de presença e ausência.

Burburinho - Você usa fontes de luz fisicamente impossíveis. Você acha que a expressão artística é mais importante que o registro da realidade?
Luciana - Sim, certamente. Se eu quisesse copiar a realidade, faria uma fotografia. Acho que a arte interpreta a realidade numa nova luz e mostra coisas que normalmente não vemos. Deveria nos fazer pensar, refletir sobre nós mesmos, sobre o mundo em que vivemos, sobre os nossos pensamentos, sentimentos, sonhos, nossa condição. Tenho várias razões para as minhas luzes e sombras estranhas. Quero criar uma atmosfera surreal, onírica. As luzes parecem parte de uma realidade diferente, de outro mundo. Meus quadros têm uma qualidade teatral e as luzes podem ser comparadas aos spotlights do palco. São ilógicas, assim como as sombras. Os mundos que eu pinto são ilógicos. Quero fazer um comentário sobre a ilogicidade de muitas coisas na vida. São também um reflexo dos aspectos do nosso mundo que não fazem sentido. Acho que é bom ver que nem sempre há uma explicação lógica para tudo que acontece nas nossas vidas.

Burburinho - Quais são suas inspirações?
Luciana - Acho que uma das minhas fortes influências é o teatro do absurdo. Li muitas peças na Argentina quando estudei literatura inglesa. Também o ambiente. Miami, com seu céu azul, o verde brilhante da vegetação, o turquesa da água, também teve um forte impacto no meu trabalho. Quando trabalho num quadro, não penso nas influências. É depois de terminar que começo a me perguntar por que pintei certas coisas. É um processo inconsciente.

Burburinho - Depois dos quartos fechados e das paisagens marinhas, qual a sua próxima série?
Luciana - Não sei. Todas essas séries surgiram espontaneamente, eu nem pensava que estava criando uma nova série quando começava. Gosto mesmo de deixar minha arte me surpreender.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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