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conversa com laura bacellar

entrevista por Alexandre Inagaki

No mercado de livros desde 1983, Laura Bacellar fez de tudo um pouco: foi tradutora, revisora, consultora e editora-chefe. Formada em Editoração pela USP, hoje trabalha na seleção de obras a serem publicadas pela Editora Mercuryo. De tanto ouvir dúvidas de novos autores sobre o funcionamento do mercado editorial, surgiu Escreva Seu Livro, um manual onde Laura explica detalhadamente o processo de produção de uma publicação literária.

Burburinho - Qual o melhor caminho que um escritor iniciante deve percorrer para ser publicado?
Laura - Primeiro, ele deve analisar se tem em mãos um original publicável. Memórias, se você não viveu experiências extraordinárias, podem constituir uma obra impublicável. Uma tese por demais específica pode ser outro trabalho sem aceitação pelo mercado. Nesses casos, sugiro a edição por conta própria por puro prazer e fim de conversa. Se a obra tem alguma viabilidade comercial, no entanto, o escritor deve procurar as editoras comerciais que trabalham com aquela linha editorial. Se você escreveu um romance, por exemplo, precisa pesquisar nas livrarias quais são as editoras que nesses últimos dois anos publicaram romances de autores brasileiros. Encontrar a editora com a mesma linha editorial da obra é totalmente fundamental para ser publicado. Não adianta nada enviar uma obra interessante e bem escrita de auto-ajuda para uma editora de didáticos, por exemplo. A recusa será instantânea.

Burburinho - Por que um livro é vendido a preços tão caros no Brasil? E qual a razão da inexistência de pocket books no mercado brasileiro?
Laura - Os livros são caros em relação ao que as pessoas ganham porque as tiragens são baixas. O preço de um livro só se abate quando você pode distribuir os custos de produção (preparação de texto, revisões de provas, diagramação, layout e execução de capa, etc) por muitos milhares de exemplares. Nos EUA, por exemplo, as tiragens de um livro brochura nunca são inferiores a dez mil, e habitualmente atingem até quinhentos mil exemplares. Evidentemente, isso barateia muitíssimo o custo do livro. E antes de o livro sair como brochura, lá e na Europa ele costuma ser publicado numa edição de capa dura, para ser comprada pelas bibliotecas. Essas edições são de três mil exemplares, como as nossas, mas o preço é muito mais alto (de vinte a quarenta dólares) e, se o livro é minimamente interessante, a edição se esgota só com essa venda a fundações, museus, institutos e bibliotecas. Ou seja, nessa primeira edição o livro já se paga, quando sai a brochura a editora começa a ter lucro. Compare a situação com a do livro brasileiro: as bibliotecas não só não têm verba como ficam pedindo doações às editoras.

Burburinho - Muitos autores têm recorrido à internet como suporte para a publicação de seus trabalhos, ou custeiam suas próprias edições. Em que casos você diria que é mais compensador fazer isso?
Laura - Recomendo que o autor publique sua obra em alguns casos. Primeiro, se você não tem interesse em adaptar sua obra para o gosto de um público que não conhece. Se você deseja escrever uma história da família em princípio para circular apenas entre seus primos e netos, não perca tempo tentando publicá-la por uma editora comercial. Segundo, se você tem um público comprador cativo. Por exemplo, se você é professor de estatística de turma após turma universitária e escreveu um manual para facilitar o seu curso, pode ter certeza de que irá ganhar muito mais dinheiro se vendê-lo diretamente a seus alunos do que se uma editora comercial publicá-lo e repassar-lhe apenas os dez por cento de direitos autorais de praxe. Terceiro, quando interessa mais a você do que a um editor comercial ver sua obra publicada. Por exemplo, se você faz carreira acadêmica, e deseja ver sua dissertação ou tese impressa. Mas é bom o autor saber que há uma diferença entre obras independentes e obras lançadas por editoras comerciais na hora de distribuí-las. As independentes raramente chegam a livrarias, dificilmente são distribuídas nacionalmente e quase nunca se tornam um grande sucesso comercial. Mas sem dúvida dão prazer ao autor e em alguns casos um lucro modesto.

Burburinho - Os e-books já podem ser considerados uma alternativa viável para publicação de obras?
Laura - E-books ainda não se firmaram como um produto, são no momento pouco mais que uma brincadeira. Enquanto não for resolvido o problema de leitura, que na tela é impossível e num cacareco importado é muito caro, esse meio de veiculação será apenas um reforço para uma eventual venda do livro em papel.

Burburinho - Qual a sua opinião a respeito dos concursos literários? É válido participar deles?
Laura - Recomendo que o autor participe de quantos puder, mas não os leve muito a sério. Ser premiado é bom, escrever sob pressão para entregar e ser julgado é um ótimo exercício, mas muitos desses concursos são viciados ou de pouco renome, contribuindo pouco para uma eventual publicação por uma editora comercial.

Burburinho - Seu livro ressalta que o novo autor precisa encarar seu ofício com profissionalismo. O que mais o escritor necessita ter a fim de se diferenciar e chamar a atenção do mercado editorial?
Laura - Gostaria de acrescentar que escrever é um ato de confiar em si mesmo - com bom senso, é claro, sem querer forçar nada goela abaixo de ninguém - e que pode ser praticado por quem se empenhar nisso. A grande mudança de foco que penso ser necessária nos escritores nacionais é a seguinte: que parem de pensar nas honras e glórias que gostariam de receber por serem publicados e comecem a pensar no que de útil eles têm a dizer a eventuais leitores. O que o escritor pode fazer para tornar a leitura interessante? Para seduzir o leitor? Para dizer alguma coisa que faça diferença? Quem tentar ir por esse caminho estará entrando em sintonia com os editores, e terá muito mais chance de ser publicado.


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