burburinho

k-pax

cinema por Nemo Nox

São duas histórias num filme só. K-Pax (EUA, 2001), dirigido por Iain Softley, tenta deixar o espectador na dúvida entre duas possíveis explicações para os acontecimentos apresentados. Por um lado, Prot (interpretado por Kevin Spacey, de The Usual Suspects e American Beauty, ambas atuações premiadas com um Oscar) pode ser um visitante de outro planeta, como afirma perante um intrigado psiquiatra (Jeff Bridges, de Tucker e Arlington Road). Por outro, pode ser somente um convincente maluco com um passado secreto e traumatizante. A proposta parece ser misturar Um Estranho no Ninho com Starman (curiosamente, estrelado pelo próprio Jeff Bridges).

Enquanto paira a dúvida, K-Pax funciona muito bem. Os problemas começam a aparecer quando o filme oferece provas conclusivas para uma das explicações mas continua tratando o espectador como se a dúvida ainda existisse. Iain Softley tenta deixar sua história em cima do muro, esquecendo-se que ele mesmo já derrubou o muro.

Um bom exemplo de como manter esse tipo de dúvida sobre uma narrativa está em Don Juan DeMarco (EUA, 1995), de Jeremy Leven, também passado num hospital psiquiátrico. Nele somos apresentados a um rapaz (Johnny Depp) que afirma ser o mítico Don Juan. Ao psiquiatra (Marlon Brando), vai contando episódios de sua vida de conquistas, e em nenhum momento temos a certeza se tudo aquilo se trata de delírio ou realidade. Nem mesmo na conclusão do filme essa escolha é feita, e ficamos com um final onírico que deixa a opção nas mãos do espectador. É o que Tzvetan Todorov chama de "fantástico", a fina e incerta linha entre o real e o maravilhoso.

K-Pax deixa claro mais de uma vez de que lado da linha a história se passa. Ao atribuir ao seu protagonista características (visão infravermelha) e conhecimentos (órbitas complexas de um sistema solar distante) impossíveis a um ser humano, a dúvida desaparece. Quando depois é oferecida uma nova explicação (trauma sofrido no passado), é tarde demais para criar a ambigüidade desejada.

Com o encanto da dúvida já desfeito, resta a K-Pax seduzir de outras formas. O roteiro é inteligente e bem-humorado, dando a Spacey a oportunidade de disparar frases como "don't worry, I'm not going to leap out of your chest" ou de mastigar e engolir em closeup uma banana inteira, incluindo a casca. A música de Ed Shearmur é envolvente, e também oferece sua pitada de humor ao trazer a canção Rocketman, de Elton John.

A atração maior, porém, é sempre Kevin Spacey. Despreocupação total, sorrisinho sardônico, gestos calculadamente desajeitados, e aquela sinceridade desmedida somente demonstrada por quem está mentindo. Ou, no caso, interpretando. Com a habilidade de quem já tem dois Oscars e merece mais alguns.


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