burburinho

conversa com fernando gonsales

entrevista por Nemo Nox

Ratos, baratas, lesmas, estes são os personagens dos quadrinhos de Fernando Gonsales, que nos diverte com observações agudas sobre o mundo animal, sempre tão parecido com o nosso.

Burburinho - Você parece ser viciado em qualquer informação referente a animais. Quem lê suas tiras imagina um autor vidrado em séries do Discovery Channel e cercado de revistas National Geographic, com cada cena ou foto se transformando logo em mais uma tirinha divertida. Você é assim mesmo?
Fernando - É mais ou menos assim. Adoro ler sobre a vida animal. Minha coleção Os Bichos está quase caindo aos pedaços. A única coisa que eu não faço é pensar em tiras enquanto estou lendo, se não fica chato. Depois, pode ser.

Burburinho - Você se formou em biologia e veterinária. Chegou a trabalhar nisso? Ou sua relação com os bichos se resumiu mesmo aos quadrinhos?
Fernando - Já trabalhei como veterinário em Tucuruí (PA). Foi durante o enchimento do reservatório da usina hidroelétrica. Fiz parte da equipe que resgatava os animais na ocasião da catástrofe. Chamo de catástrofe porque uma quantidade incrível de floresta amazônica foi submergida e a operação de resgate dos animais foi pura demagogia, pois sem a floresta não adianta amontoar os bichos em outro lugar.

Burburinho - É possível viver de quadrinhos no Brasil? E você tem planos de exportar o Níquel Náusea?
Fernando - Só de quadrinhos é difícil. A gente acaba fazendo outras coisas para completar o orçamento (tipo roteiro para tv, ilustração de livro, de revista...). O Níquel sai em Portugal, mas se saísse em outros países seria bárbaro, assim poderia viver só de hq. Mas vamos com calma que um dia dá certo.

Burburinho - Qual o segredo para criar uma boa tira de quadrinhos?
Fernando - Segredo eu não sei. Mas pra mim ajuda muito trabalhar adiantado, assim tenho tempo para perceber que posso mudar alguma coisa antes de publicar.

Burburinho - Seus personagens principais são um rato e uma barata. É uma coisa meio Titãs, "bichos escrotos, saiam dos esgotos, venham enfeitar meu lar"?
Fernando - É isso. Os bichos escrotos são o máximo, porque vivem no mundo dos humanos sem pedir licença. Já viu um movimento pela preservação das baratas?

Burburinho - É verdade que você já teve uma pulga de estimação? Conta essa história aí...
Fernando - É verdade. Quando eu era moleque, criava uma pulga num vidrinho e alimentava ela com meu próprio sangue (abria a tampa e encostava a boca do vidrinho na barriga, que é um local fácil de coçar depois). Um primo meu testou um inseticida nela e desgraçadamente a substância funcionou, pondo fim ao meu animalzinho.

Burburinho - Você ainda trabalha numa prancheta tradicional, com papel e tinta? Ou usa computadores em alguma fase da produção? Que software você usa?
Fernando - Trabalho numa prancheta, com papel, lápis, pincel, e nanquim. Depois a tira vai para o computador para ser scanneada e colorida. Minha amantíssima esposa é quem cuida dessa última etapa, usando o tradicional Photoshop.

Burburinho - Que quadrinhos você lê hoje?
Fernando - Não sou leitor voraz de hq. Gosto mesmo é de quadrinho de humor. Então, hoje em dia, não tenho muitas opções no gênero.

Burburinho - E quem são seus ídolos da arte seqüencial?
Fernando - Acho o Carl Barks o máximo. Aquelas hqs com o Tio Patinhas marcaram minha infância, e até hoje tenho imenso prazer em relê-las. Adoro o Hagar (feito pelo pai, Dick Browne), Asterix, Lucky Luke, Quino, Aragonés... e o Canini, que desenhou muito tempo uma versão brasileira do Zé Carioca.

Burburinho - Você publica em grandes jornais de todo o Brasil, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Correio Braziliense... Você ainda tem alguma meta a alcançar com quadrinhos ou só continuar assim já está bom?
Fernando - Se continuar assim, está muito bom. Mas gostaria de poder ter mais tempo para poder fazer hqs longas, com várias páginas, como eu fazia no tempo em que publicava um gibi.

Burburinho - O Níquel Náusea já é um personagem veterano. Você tem planos para o futuro dele? Vai parar de desenhar o ratinho (como aconteceu com o Calvin), vai matá-lo (destino da Rê Bordosa) ou vai dar uma vida ainda mais longa a ele?
Fernando - Acho que o Níquel ainda tem bastante lenha para queimar. Principalmente no formato da tira que eu uso, em que ele não precisa aparecer sempre. Assim, é possível que vocês ainda tenham que agüentar o cara por um bom tempo.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.