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conversa com adão iturrusgarai

entrevista por Nemo Nox

Gaúcho de Cachoeira do Sul, atualmente vivendo em São Paulo, Adão Iturrusgarai é um quadrinista sempre atraído por temas divertidamente polêmicos. Dos cowboys gay Rocky & Hudson à ninfomaníaca Aline, suas tiras muitas vezes desafiam os limites de um jornal de grande circulação como a Folha de S. Paulo.

Burburinho - Nunca foi segredo sua admiração pelo trabalho do Angeli. Você se considera um discípulo?
Adão - Não, nunca foi segredo. Tenho muita admiração pelo trabalho do Angeli. Quando vi o primeiro álbum dele (o das tirinhas da Rê Bordosa), nos anos oitenta, eu morava ainda em Porto Alegre. Fiquei emocionado dizendo pra mim mesmo: Putz! Esse cara pegou o espírito do momento! Depois, quando fui morar em São Paulo, ficava emocionado cada vez que o Angeli, o Laerte e o Glauco vinham me visitar. Sim, me considero discípulo, bem como discípulo do Laerte, apesar de nossos desenhos não se parecerem muito.

Burburinho - Que outras influências você teve?
Adão - Alguns quadrinistas que me influenciaram: Wolinsky, Reiser, Crumb, Peter Bagge, Glauco, Henfil.

Burburinho - Como aconteceu a sua participação na série Los Três Amigos, com Angeli, Laerte e Glauco? Mudou alguma coisa na sua carreira com essa parceria?
Adão - Eu ainda morava em Porto Alegre. Fui almoçar com o Angeli, Laerte e Glauco numa sexta-feira, quando aconteciam as reuniões dos três amigos. No final do almoço, o Laerte me perguntou: Quer desenhar junto com os três amigos hoje? Respondi: Lógico! O engraçado disso tudo é que essa minha primeira participação foi com os cowboys gay Rocky e Hudson e acabou sendo censurada na Folha. Quando cheguei em Porto Alegre, comprei a Folha e vi o desenho modificado, não entendi porra nenhuma. Depois fiquei sabendo que o Glauco teve que modificar o desenho às pressas, lá na redação da Folha. A piada ficou bem ruim e o meu nome continuou assinando. O que mudou na minha carreira? Sei lá... Aprendi muita coisa trabalhando todos esses anos com os três. Isso deve ter influenciado muito no meu trabalho.

Burburinho - Como foi sua passagem por Paris? O que você foi procurar lá? Encontrou?
Adão - Naquela época eu adorava os quadrinhos franceses. Fui pra Paris tentar publicar lá. Mas em 1991 o mercado já tava bastante decadente. Tinha o problema da língua, costumes, etc. No Brasil tava muito mais fervilhante. Consegui publicar em duas revistas/fanzines, ao lado de gente muito bacana. Mas antes de tudo fui pra Paris pra conhecer a Europa, e isso foi muito bacana. A cidade me influenciou muito, me fez amadurecer e refletiu no meu desenho.

Burburinho - A que você atribui o sucesso da tira Aline? Espelho dos tempos, crítica de costumes, ou simplesmente por que é engraçada?
Adão - Acho que algumas pessoas gostam da Aline porque se identificam com ela, por que ela é engraçada. É o tipo da pergunta difícil de responder. Não gosto da palavra "sucesso". Tem dias que estou adorando fazer a Aline e aí acho que a coisa flui mais bacana. O desenho fica mais gostoso. Quando eu abro o jornal e vejo que a minha tira tá legal, fico feliz. Aí acho que o leitor tá gostando também. Tem também aqueles dias que você acha a tira uma merda e muita gente gosta. Não dá pra entender.

Burburinho - Você repartiria sua namorada com outro cara, como no trio Aline e seus dois namorados?
Adão - Já fiz umas bobagens desse tipo, mas nunca funcionou direito. Na cama, eu e um amigo ficamos rindo um do outro enquanto a menina ficou a ver navios. Preciso ficar a dois pra me concentrar direitinho e não gosto da idéia de um amigo estar olhando pra minha bunda. Hahaha!

Burburinho - Quando a Aline começou a tomar LSD, nas tiras que a Folha de S. Paulo publica, houve uma certa polêmica, com leitores reclamando. Como foi isso? Houve outros episódios controversos?
Adão - Lembro disso. Foi no início. Adorei aquela série do LSD. O caso gerou uma polêmica e foi mediado pelo ombudsman da Folha. No final das contas, me saí bem, me defendi legal. Foi uma puta divulgação pra tira. Mas confesso que fazer tiras sobre LSD num jornal de grande circulação é arriscado. De vez em quando ocorrem pequenos episódios controversos, mas que não envolvem tanta polêmica. Uma tira ou outra vetada por um ou outro motivo. Palavrões, muita putaria, pessoas famosas às vezes dão problema.

Burburinho - Você pretende trazer de volta algum dia as aventuras dos cowboys gay Rocky & Hudson?
Adão - Gostaria de voltar com Rocky & Hudson. Há pouco tempo o site gay Sui Generis me convidou pra fazer a tira novamente. Pena que o site ficou mal de grana e a coisa emperrou. Gosto de desenhar o Rocky & Hudson.

Burburinho - Você já escreveu roteiros para TV Colosso e Casseta & Planeta. Gostou? Faria carreira na televisão? Ou não pode viver sem os quadrinhos?
Adão - Escrever pra televisão é mais difícil. Às vezes chegava a ser um sofrimento. TV Colosso foi o melhor programa que escrevi, o que fluía melhor e dava mais prazer. Mas não poderia viver sem desenhar quadrinhos.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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