burburinho

os queridinhos da américa

cinema por Nemo Nox

Houve época em que as grandes atrizes do cinema norte-americano se especializavam em dramas. Jessica Lange é lembrada hoje por sua passagem pelo hospício em Frances ou pelo trágico final de The Postman Always Rings Twice. Meryl Streep viveu todo tipo de desgraças na tela, dos campos de concentração de Sophie's Choice ao xixi atômico de Silkwood. Mas a grande estrela de hoje, Julia Roberts, tem seguido um caminho diferente, alternando os filmes dramáticos com comédias românticas, e são estas últimas, desde Pretty Woman, que lhe vêm garantindo uma legião cada vez maior de fãs. Depois de My Best Friend's Wedding, Notting Hill e Runaway Bride, a queridinha da América volta a fazer sucesso com mais uma comédia romântica, chamada exatamente Os Queridinhos da América (America's Sweethearts, EUA, 2001).

Uma comédia leve sobre o mundo dos astros e estrelas de Hollywood, Os Queridinhos da América traz a marca pessoal de Billy Crystal, que escreveu o roteiro em parceria com Peter Tolan, produziu e interpretou um dos papéis principais. O diretor Joe Roth certamente influenciou menos o resultado final que o onipresente Crystal. O filme é um desfile de gente famosa. Catherine Zeta-Jones (de The Mask of Zorro e Traffic) e John Cusack (de High Fidelity e Being John Malkovich) interpretam o casalzinho dourado que, para desgosto do público, se separou num episódio espetacular. Ela, vaidosa e egoísta. Ele, inseguro e ressentido. Fazendo uma ponte entre os dois, a irmã da estrela, Julia Roberts. O resultado, como em qualquer comédia romântica, é previsível. Nos resta a diversão das situações que conduzem a história a seu final inescapável.

Para os papéis secundários foram escolhidos atores conhecidos, que dão pequenos espetáculos. Hank Azaria (de Godzilla) é o amante espanhol, macho latino, com um sotaque tão carregado que fica impossível não lembrar de Antonio Banderas. Christopher Walken (de Sleepy Hollow) interpreta um cineasta alucinado, pós-hippie, misto de Godard e Unabomber. Alan Arkin (de O Que É Isso, Companheiro?) aparece como um conselheiro espiritual, tão fake como só um guru hollywoodiano pode ser. Stanley Tucci (de A Midsummer Night's Dream) faz um dono de estúdio inescrupuloso e pouco brilhante, alvo preferido de qualquer comédia sobre o mundinho do cinema.

No centro da trama de Os Queridinhos da América está um filme, dirigido por Walken e estrelado por Zeta-Jones e Cusack, cuja versão final permanece um mistério. Ninguém assistiu mas todos esperam, por uma razão ou outra, que seja um grande sucesso. Uma surpresa, porém, espreita por trás das câmaras, já que o resultado, apesar de todas as promessas, é algo bem diferente do que deveria ser. De certa forma, ironicamente, esse filme dentro do filme espelha Os Queridinhos da América. Ficamos aguardando a anunciada sátira ao mundo das celebridades e o que nos é oferecido fica aquém das expectativas. As risadas estão lá, boas situações são criadas, mas falta a mordacidade de, por exemplo, State and Main, do David Mamet, visão ferina do ambiente das produções cinematográficas. Como reflexão sobre o circo hollywoodiano, Os Queridinhos da América estaria mais para press release que para crítica.


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