burburinho

coração de cavaleiro

cinema por Nemo Nox

Como encaixar uma conhecida marca de artigos esportivos num filme passado na Idade Média? Que tal uma armadura Nike? Coração de Cavaleiro (A Knight's Tale, EUA, 2001), escrito e dirigido por Brian Helgeland, não tem pudores em apresentar um merchadising descarado e anacrônico como este. Pelo contrário, faz dos anacronismos um de seus maiores trunfos e não hesita em mostrar cavaleiros sendo tratados como astros do esporte contemporâneo ou em colocar campesinos e nobres do passado entoando hinos roqueiros do século XX.

Coração de Cavaleiro já começa mostrando claramente suas intenções, com uma torcida medieval recebendo os cavaleiros ao som de We Will Rock You, do Queen. Não é somente trilha sonora, os figurantes realmente cantam e dançam cheios de ânimo, como se estivéssemos num universo paralelo onde a música da banda inglesa fosse mesmo contemporânea de madrigais e cantos gregorianos. O delírio musical volta ainda outras vezes, como num baile movido a David Bowie e Golden Years ou novamente com Queen embalando o estádio com We Are The Champions. E, por estranho que possa parecer, fica a impressão de serem as músicas perfeitas para aqueles momentos.

Brian Helgeland, depois de seu Oscar pelo roteiro de L.A. Confidential, lançou-se como diretor no interessante Payback, em que fazia a platéia torcer pelo bandido Mel Gibson. Em Coração de Cavaleiro, seu segundo filme, volta a apostar na irreverência narrativa para (re)contar a velha história do atleta vitorioso e seu romance com uma fã. Só que em vez de pegar um futebolista ou pugilista prefere transferir a narrativa para o universo das justas, combate medieval em que dois cavaleiros armados de lanças tentavam derrubar o adversário do cavalo.

Heath Ledger (de 10 Things I Hate About You e The Patriot) interpreta o plebeu William Thatcher, que se disfarça de nobre para poder participar dos torneios. À sua volta gira um pequeno grupo que inclui dois assistentes cômicos (Mark Addy e Alan Tudyk), uma ferreira bonitinha (Laura Fraser), uma dama de beleza exótica (Shannyn Sossamon), figuras históricas como o escritor Geoffrey Chaucer (Paul Bettany) e Edward, o Príncipe Negro (James Purefoy), e, é claro, um arqui-vilão (Rufus Sewell) para competir com o protagonista tanto no esporte como no amor.

Rigor histórico definitivamente não é uma das preocupações de Coração de Cavaleiro. O que vale é dar vazão a temas universais como uma paixão avassaladora ou a vontade inquebrável de vencer, tudo numa roupagem descompromissada, irreverente e recheada de anacronismos divertidos, da música ao figurino. Para assistir com um sorriso e um balde de pipocas.


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