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conversa com eli stone

entrevista por Nemo Nox

Figura curiosa do mundo dos quadrinhos, Eli Stone ficou famoso desenhando o personagem The Tick. Agora, depois de alguns anos afastado, prepara sua volta com Remote, onde acumula as funções de roteirista e desenhista.

Burburinho - Como você passou de The Tick para o novo Remote? Alguma semelhança entre os dois ou contraste total?
Eli - Passou tanto tempo entre trabalhar com The Tick e começar minha nova série que a transição foi na verdade bem fácil. Depois de The Tick, passei uns anos fazendo ilustração como freelancer (e ainda faço) e muita coisa para internet. Aprendi bastante sobre coisas como técnicas de Photoshop, animação em Flash, e mesmo sobre redação, coisas que acabaram ajudando na hora de fazer e divulgar Remote. Acho que foi saudável passar uns tempos fora do circuito dos quadrinhos, porque agora tenho uma atitude nova em relação ao meio. Existem algumas semelhanças entre os meus último números de The Tick e o novo Remote, como a minha fixação no que poderíamos chamar de "visão alternativa da vida" e psicologia anormal. Mas acho que na superfécie Remote vai parecer diferente de qualquer coisa que eu tenha feito em The Tick. Ah, é bom dizer que estou escrevendo tudo isto bêbado de tanta tequila. Sem brincadeira. Fiz o meu site assim também. Sério!

Burburinho - Remote trata da obsessão de assistir televisão. Você acha que seríamos mais felizes assistindo menos tv ou até sem tv? Ou o tema é somente incidental?
Eli - O tema da televisão não é incidental. É proposital e tirado da minha experiência pessoal. Mas acho que poderia ter escolhido outro tema e dito mais ou menos o mesmo que digo em Remote. Escolhi a televisão porque sou um espectador ávido, e também porque a maior parte das pessoas que vai comprar os quadrinhos também assiste tv, assim mais gente pode se identificar com a história. Você sabia que duas em cada três pessoas no planeta nunca fizeram um telefonema? Isso não tem nada a ver com a conversa, mas achei que era interessante dizer. Acredito que a televisão, assim como quase tudo na vida, é tão útil ou nociva quanto o usuário permitir. Pessoas que vomitam slogans como "mate sua televisão" são reacionários idiotas. Há muito a ser aprendido com a televisão. Não sou cristão, mas vejo sabedoria nas palavras de Cristo e aprendo com elas. Da mesma forma, acho que podemos assistir uma comédia ou um programa de auditório, extrair dali a informação que achamos importante e descartar o resto. Como diz o Ray Daily, "não importa o que você assiste, mas como você assiste".

Burburinho - Quão autobiográfico é o Ray Daily, protagonista de Remote?
Eli - De muitas formas, ele é como eu. Analítico e esnobe como eu. Mas sua personalidade em relação aos outros é o oposto da minha. Ele é introvertido e se sente desconfortável com gente em volta. Ele guarda seus pensamentos para si, e na sua mente faz troça do mundo. Eu não sou assim, faço troça do mundo publicamente! Também acho que tenho um tremendo amor pelo mundo real e pelas pessoas, ao contrário do Ray. Ele também não é um consumidor, não acredita em comprar coisas quando as pode ter através da televisão. Já eu, adoro comprar coisas.

Burburinho - Você disse que gosta que seus leitores pensem. Como você encaixa diversão e análise crítica numa história em quadrinhos?
Eli - Não é fácil, posso dizer isto. Grande parte da história é simplesmente análise crítica da mídia e minha própria psicologia pop contada através dos monólogos interiores do Ray. Sinceramente espero não aborrecer o leitor médio. Mas acho que se o personagem que faz a crítica e a análise é uma pessoa dinâmica e interessante, isso faz com que você queira ouvir o que ele tem a dizer. Acredito que o Ray seja assim. E, para equilibrar as coisas para quem gosta de ação, ele acaba sendo caçado por mercenários japoneses manhosos e de terno preto. Pra não falar que ele começa a ter alucinações pesadas logo na primeira revista (ainda não sei quantas vão ser no total). Na verdade, estou fazendo Remote mais para mim que para o público. Não espero que seja um recorde de vendas. Espero que o roteiro para cinema (que já está bem desenvolvido) atinja um público maior - e pague minhas dívidas. Tenho um dente quase caindo e não posso pagar o dentista.

Burburinho - Você fez Remote no computador ou na prancheta?
Eli - As duas coisas. Todos os personagens e a maior parte dos adereços são desenhados em papel e geralmente pintados com pincel. Mas eu queria criar um ambiente bem estéril para o Ray viver, então modelei muitos cenários no Photoshop. Agora estou brincando com o programa Bryce 3D, mas ainda não aprendi a trabalhar em três dimensões. Só estou brincando com isso, uma coisa de cada vez. Mas a maior parte da arte de Remote foi feita à maneira antiga. O irônico é que é muito mais difícil trabalhar no computador que com a deliciosa bagunça das tintas. Nem sempre os computadores facilitam a nossa vida.

Burburinho - O que você tem lido? O que anda influenciando o seu trabalho?
Eli - Como regra geral, não leio. Não tenho nada contra leitura, só não estou enamorado com o esporte de me sentar com um livro. Só li dez livros em trinta anos. Mas as influências são muitas. No caso do Remote, não preciso ir além do meu televisor para me inspirar. Estou sempre fazendo esboços e anotações tendo a tv ao fundo. Sabia que não consigo dormir se a tv não estiver ligada? A maior influência artística que me lembro agora é o Kyle Baker, autor dos livros Why I Hate Saturn e The Cowboy Wally Show. Meu estilo de arte seqüencial ia se desenvolvendo numa direção própria. Quando descobri Baker, foi como se ele preenchesse as lacunas e me desse as respostas que eu estava procurando. Por coincidência, ele também usou cenários de computador em I Die At Midnight. Não posso dizer que o estou imitando, mas com certeza é uma inspiração. De qualquer forma, o principal é a construção da história (como tantos quadrinistas esquecem), e isso ninguém te ensina. Diabos, eu ainda não sei como contar uma história sólida. Isso é muito mais difícil que desenhar.

Burburinho - Remote vai ser publicado no Brasil?
Eli - Espero que sim, mas não tenho certeza. Remote vai ser publicado pela Funk-O-Tron, de Battle Pope, e acho que eles não têm distribuidores no Brasil. Adoro esses caras, são boa gente. Mas quem sabe onde todos estaremos em alguns meses? Se eu tiver muita sorte, estarei ocupado demais reescrevendo o roteiro para cinema e pagando minhas dívidas. Já falei no meu dente podre? E no aluguel? Mas vender um roteiro é um sonho. Mesmo assim, às vezes os sonhos se realizam. Fácil dizer isso quando estou bêbado.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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