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televisão por Nemo Nox

O que transformou Friends numa das séries de maior sucesso da televisão? À primeira vista pode parecer somente mais um enlatado tratando de forma humorística de todos os mesmos temas que tantas outras séries já abordaram. Mas Friends abriga algumas características únicas, que podem ter sido os ingredientes mais importantes em seu grande êxito.

Talvez a maior vantagem competitiva de Friends tenha sido incorporar componentes de soap opera dentro da estrutura básica de sitcom. Comparemos rapidamente com outra série de grande sucesso, Seinfeld. Os personagens desta última são basicamente os mesmos do primeiro ao último episódio. Suas situações profissionais e suas motivações pessoais não se alteraram significativamente durante os anos em que a série esteve no ar. Só o que muda é o tema de cada episódio, e grande parte da graça é ver como cada personagem reagirá frente à situação apresentada. Quem deixa de ver um capítulo não se perde na linha narrativa da série. Em Friends, pelo contrário, há uma constante evolução. Como numa telenovela, e como na vida real, cada personagem vai se modificando, crescendo, ganhando novas motivações e novos objetivos. Assim, mais importante que o tema específico de cada episódio é o tema geral da série. Quem perde um capítulo pode não entender a reação de um personagem no capítulo seguinte.

Para uma estrutura dessas funcionar é preciso uma coleção de personagens interessante e variada. É por isso que Friends possui não um protagonista, ou um casal de protagonistas, mas seis personagens com peso semelhante, o que permite uma rotação contínua do foco de interesse e dá espaço para que algumas situações dramáticas amadureçam sem a necessidade constante de um determinado personagem em destaque.

O universo de tipos em Friends parece partir de estereótipos básicos. Rachel Green (interpretada por Jennifer Aniston, de Picture Perfect) é a riquinha mimada que resolve viver longe da família. Monica Geller (Courteney Cox, de Scream) é a controladora obsessiva. Phoebe Buffay (Lisa Kudrow, de The Opposite of Sex) é a descolada new age. Joey Tribbiani (Matt LeBlanc, de Lost in Space) é o ator de segunda categoria com cérebro em marcha lenta. Chandler Bing (Matthew Perry, de Three to Tango) é o inseguro que se refugia do mundo atrás de suas piadas. Ross Geller (David Schwimmer, de Six Days Seven Nights) é o geek que cresceu em tamanho mas continua sentimentalmente infantil.

O que poderia ser somente uma galeria de personagens aparentemente sem grandes atrativos se transforma numa coleção de criaturas interessantes e divertidas quando entram em cena os inúmeros relacionamentos de Friends. Monica é irmã de Ross, que é apaixonado por Rachel, que é amiga dos tempos de colégio de Monica, que acaba namorando Chandler, que mora com Joey, que é vizinho de Monica, que já morou com Phoebe, que canta no bar Central Perk, cujo dono é apaixonado por Rachel, que largou o marido no altar e depois atrapalhou o casamento de Ross, que foi casado com uma lésbica com quem tem um filho, que já fez teste de ator com Joey, que já teve seu próprio apartamento mas voltou a morar com Chandler, que foi colega de escola de Ross, que tinha um macaquinho chamado Marcel... E assim continua a infindável teia de associações que permite que cada personagem da série vá, pouquinho a pouquinho, evoluindo sob o olhar do espectador.

Ironicamente, um dos motivos que pode levar Friends ao fim (além, claro, do impasse econômico - cada um dos atores se transformou, graças à própria série, em astro ou estrela merecedor de cachês gigantescos) é precisamente uma das maiores razões de seu sucesso: a evolução dos personagens. Quase todos acabaram chegando a relacionamentos estáveis, com algum dos seis ou com outros que se foram agregando ao núcleo central, e aos poucos o grupo de amigos original foi se transformando em grupo de casais, alterando a temática e o apelo do início. Mas os fãs não têm do que se queixar. Fica uma invejável coleção de episódios contendo alguns dos melhores momentos da história das sitcoms.


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