burburinho

o umbigo da princesa

quadrinhos por Nemo Nox

Mandrake é um personagem clássico dos quadrinhos, tendo influenciado artistas de todos os gêneros, dos filmes de Fellini à indumentária de Zé do Caixão. Criado por Lee Falk em 1934, o mágico de capa e cartola encantou gerações e até hoje faz suas aparições em jornais espalhados pelo mundo.

As primeiras histórias foram desenhadas pelo próprio Falk (e o mágico era quase um auto-retrato), que depois passou a tarefa para Phil Davis e mais tarde, com a morte de Davis, para Fred Fredericks. No início Mandrake realmente tinha poderes sobrenaturais, e era capaz de proezas de dar inveja a David Copperfield e Paulo Coelho juntos. Com o tempo, porém, a série foi sendo adaptada um pouco mais à realidade e o mago passou a ser somente um mestre da hipnose e do ilusionismo, fazendo com que seus inimigos imaginassem coisas. Como companheiros em sua vida de combate ao crime, Mandrake tinha o fiel Lothar, um negro musculoso, e sua eterna noiva, a exótica princesa Narda.

Narda é um personagem muito interessante. Princesa de um reino de nome sugestivo, Cockaigne, ela foi a primeira companheira de um herói dos quadrinhos a viver em descarado concubinato com ele. Numa época em que casais casados apareciam no cinema dormindo em camas separadas e os heróis tinham eternas e pudicas noivas e namoradas, Narda morava na mesma casa em que Mandrake e desfilava em trajes ousados como conjuntinhos diáfanos de inspiração oriental e até biquínis. Um escândalo para o moralismo do período entre-guerras, mesmo se não especularmos sobre o papel do onipresente Lothar nesse relacionamento.

É exatamente por causa dos modelitos ousados da princesa que ficamos sabendo de uma de suas características mais curiosas. Desfilando freqüentemente de barriga à mostra, Narda permite uma espantosa constatação: ela não tem umbigo! Que explicação poderia haver para tal falha anatômica? A primeira hipótese, a de erro do desenhista, é rapidamente descartada ao vermos que quadrinho após quadrinho repete-se a característica. Sendo voluntária, portanto, a omissão umbilical, partimos para teorias mais criativas.

Seria Narda não um ser humano mas uma criação mágica de Mandrake? Uma espécie de homúnculo bem torneado, um golem com perfil de pin-up? Ou nada mais que ilusão hipnótica, um ser etéreo fruto das habilidades do mago? E por que Mandrake necessitaria de uma noiva ilusória? Seria uma fachada para encobrir segredos mais terríveis que o próprio concubinato? Ou na verdade Narda teria vindo de outro planeta e não faria parte do gênero humano? (Muitas das aventuras de Mandrake se passaram em território alienígena, e os editores brasileiros, na falta de material original para publicar, chegaram mesmo a retocar uma história do Flash Gordon trocando o protagonista pelo mágico de cartola.) Ou poderia a princesa ser na verdade um autômato, colocando Mandrake mais para o lado da tecnologia que do misticismo? Talvez no passado Narda pudesse ter ostentado um umbigo como qualquer pessoa nomal, mais tarde removido por alguma razão? Uma lipoaspiração mal feita? Ou simplesmente o umbigo teria saído de moda no reino de Cockaigne?

As teorias são muitas, mas a dúvida persiste: por que a princesa Narda não possui umbigo? Mais um grande mistério da história dos quadrinhos.



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