burburinho

memento

cinema por Nemo Nox

O protagonista de Memento (EUA, 2000, distribuído no Brasil com o discutível título de Amnésia), sofre de uma doença rara e não é capaz de arquivar na memória acontecimentos recentes. Para conseguir dar alguma continuidade à sua vida, recorre a um sistema de registros que inclui fotografias, anotações e até tatuagens.

É o cotidiano transformado em labirinto, misturando Borges e Kafka de uma maneira cruel. Esta premissa já bastaria para criar uma história interessante e envolvente, mas o filme de Christopher Nolan (ele dirigiu e roteirizou, baseado num conto de seu irmão Jonathan Nolan) vai mais longe e acrescenta uma trama de assassinato e vingança. Ironia pura, já que vingança depende de memória.

A criatividade maior de Memento, porém, não está no conteúdo, mas na forma. Como colocar o espectador na pele do protagonista e fazê-lo experimentar a confusão e a frustração de se esquecer do que aconteceu há quinze minutos? Depois de apresentar uma cena, como apagá-la da memória de quem está assistindo? Impossível, claro. Mas Christopher Nolan encontrou um jeito de conseguir o mesmo resultado: contando a história ao contrário. Você vê uma cena e não sabe o que aconteceu antes, porque o filme ainda não mostrou. Em seguida, você vê o que aconteceu antes e entende o que veio depois. Mas ainda não sabe o que aconteceu antes do antes. E assim a ação vai se desenrolando, numa espiral reversa de efeitos e causas.

Memento apresenta um formato ousado e inovador, mais criativo que as celebradas narrativas entrecruzadas e ligeiramente defasadas de Tarantino e Ritchie, mais engenhoso que versões conflitantes de Rashomon, talvez um parente distante do mosaico onírico de Ano Passado em Marienbad. O resultado é um puzzle que requer a constante atenção do espectador numa ginástica permanente de reconstrução do filme. A falta de memória recente já foi abordada antes (em Inverno Quente, do Tom Tykwer, por exemplo) e a narrativa reversa também não é novidade (Traição, de David Hugh Jones), mas a combinação de forma e conteúdo de Memento é extremamente eficiente e divertidamente criativa. Assistir o filme deixa de ser uma atividade apática e se torna um verdadeiro exercício participativo. Claro que muita gente vai continuar preferindo fórmulas fáceis e reconhecíveis, mas para quem gosta de pensar Memento é um grande filme.


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