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conversa com ahmad jamal

entrevista por Nemo Nox

Ahmad Jamal é um dos maiores pianistas da história do jazz. Nascido em 1930, continua em grande atividade, tendo influenciado várias gerações de músicos. Entre um concerto em Ramatuelle, na França, e outro no Tanglewood Jazz Festival, nos EUA, ele encontrou uns minutos para conversar.

Burburinho - Como você começou a tocar piano?
Ahmad - O piano me escolheu. Simplesmente sentei nele aos três anos e comecei a tocar.

Burburinho - Quantos concertos você faz por ano?
Ahmad - Normalmente toco seis meses por ano, mas sem ser tudo seguido.

Burburinho - Você prefere os trios, mas dá a eles um tratamento orquestral. Como consegue toda essa riqueza só com piano, baixo e bateria?
Ahmad - Trabalho muito com pequenos conjuntos, mas também aumento meu grupo e toco em quartetos, quintetos, sextetos, etc. Também trabalhei com vozes e várias orquestras, como a Cleveland Pops. Cresci em Pittsburgh, Pennsylvania, tocando em orquestras grandes desde os dez anos, e é daí que vem meu som orquestral.

Burburinho - Você é freqüentemente elogiado pelas inovações rítmicas, mas a harmonia tem um grande papel na sua música. De onde vem esse sentido de espaço?
Ahmad - Minhas harmonias vêm de eu ter vivido em três eras musicais diferentes. A época das big bands, quando eu era bem jovem, a época de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, e a época atual.

Burburinho - Você disse uma vez que era um "contador de histórias sem palavras". Você considera a música como uma forma de narrativa?
Ahmad - A música faz muitas afirmações e impressões, e é um reflexo da própria vida.

Burburinho - Você acha que os ouvintes precisam atingir algum grau de sofisticação para poder apreciar o jazz? Se não, como explicar que artistas pop medíocres se transformem rapidamente em milionários enquanto ótimos jazzistas fiquem com um público muito menor?
Ahmad - A maior parte das pessoas é grosseiramente enganada pelo superficial. Descobrem os valores verdadeiros muito tarde. É por isso que Mozart foi enterrado como indigente, Van Gogh era miserável, e assim por diante.

Burburinho - Que música você ouve?
Ahmad - Ouço muita coisa: Ravel, Art Tatum, Duke Ellington, música européia, música norte-americana... Desde que tenha valor.

Burburinho - Você disse que não toca jazz, mas "música clássica americana". Por quê?
Ahmad - Duke Ellington não se referia a si mesmo como músico de jazz, e bem poucos de nós o fazemos. Lancei o termo "música clássica americana" anos atrás e agora rádios, jornais e revistas estão usando a expressão para a única forma artística genuinamente americana, além da arte dos índios.

Burburinho - Você já tocou no Brasil. Planeja voltar?
Ahmad - Toquei aí duas vezes. Talvez toque novamente no futuro.

Burburinho - Como você se sente sendo colocado pela crítica no mesmo nível de grandes músicos como Duke Ellington, Count Basie ou Art Tatum?
Ahmad - Estou muito ocupado pensando no meu trabalho e em todas as atividades da minha vida para me fixar no que eu possa já ter realizado.


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