burburinho

moulin rouge!

cinema por Nemo Nox

O diretor Baz Luhrmann insiste na fórmula que ele chama de "cortina vermelha": uma história simples, baseada num mito clássico, encaixada num mundo construído para ser familiar e exótico ao mesmo tempo. Ele fez isso em Strictly Ballroom e em Romeo+Juliet, e agora volta ao ataque com Moulin Rouge! (EUA, 2001), sem ainda ter percebido que os pacotes bem embrulhados que oferece ao público não passam de caixas vazias.

Moulin Rouge! é tenuemente baseado no mito órfico. Artista irresistível vai ao inferno resgatar sua amada, com uma conclusão conhecida de todos que leram o romance de Orfeu e Eurídice. Luhrmann resolveu ambientar sua fábula pós-moderna na Paris de 1900, uma cidade imaginária repleta de referências e anacronismos. Nicole Kidman é Satine, misto de meretriz e top model que domina a cena do bordel do título. Sem dúvida, a mais bela prostituta tuberculosa da história do cinema. Ewan McGregor é Christian, híbrido de escritor e rock star que tenta conquistar sua amada usando as mais tolas frases românticas já proferidas por um galã. Ajudando o herói em sua inglória cruzada, aparece um grupo de boêmios auto-rotulado de "filhos da revolução", com destaque para o nanico Toulouse (infeliz caricatura do Lautrec retratado no Moulin Rouge de John Huston) e o músico Satie (outra caricatura, desta vez do pobre compositor Eric).

Para cobrir a história simplória com sua "cortina vermelha" e fazê-la durar arrastados cento e vinte minutos, Luhrmann costurou pedaços de cultura pop de todos os tipos. Num liquidificador tresloucado, misturou nacos de art noveau com lascas de videoclips, acrescentou mitos do cinema e ícones da música, temperou com gotas de tango e pitadas de Busby Berkley em viagem de ácido. Esqueceu, porém, de usar uma tampa para conter o mistifório enlouquecido, espalhando seu coquetel indigesto para todos os lados, sem rumo e sem pena do espectador.

É triste dizer isto de um filme musical, mas o pior de Moulin Rouge! é a música. Se a parte visual consegue algum impacto positivo, principalmente graças a uma cenografia bem cuidada e a efeitos de edição, a trilha sonora é quase uma tortura para ouvidos mais sensíveis. O mosaico musical proposto pode ter parecido boa idéia no papel, com inúmeros trechos de sucessos românticos, mas na prática ficamos somente com um pout-pourri de melodias achatadas em estilo opereta, interpretado por vozes de habilidade questionável. A já famosa (depois do bombardeio da mídia) canção Lady Marmalade, cantada pelas moçoilas Christina Aguilera, Pink, Lil' Kim, Mya e Missy Elliot, não aparece no filme. Em seu lugar, uma versão murcha do sucesso, que só serve de moldura para Nicole Kidman atacar em estilo Monroe-Dietrich com Diamonds Are a Girl's Best Friend.

No século XIX, juntando metodicamente pedaços de vários cadáveres, o doutor Victor von Frankenstein produziu a já lendária criatura sem nome e garantiu seu lugar no panteão dos mitos literários e cinematográficos. Baz Luhrmann, imbuído do espírito predatório do pós-modernismo ("é impossível criar qualquer coisa nova, só o que resta é imitar-reinterpretar-ressuscitar coisas antigas"), usou uma fórmula bem parecida à do famoso personagem de Mary Shelley, substituindo os cadáveres por conhecidos filmes e músicas de sucesso. Aguardamos ansiosamente que seja também perseguido por irados aldeões armados de tochas e pontiagudos instrumentos de lavoura.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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