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swordfish

cinema por Nemo Nox

Pense em elementos presentes na maior parte dos filmes de ação dos últimos anos. O vilão inteligente interpretado por um ator famoso. A mulher sensual dividida entre o protagonista e o antagonista. A alucinante perseguição de automóveis. O policial negro e competente. O ente querido (esposa, filha, etc) raptado para forçar o mocinho a ajudar o bandido. As citações graciosas a outros sucessos do cinema. A Senha (Swordfish, EUA, 2001), dirigido por Dominic Sena, tem todos estes clichês, e muitos mais, mas os usa como base para pequenas surpresas que não seguem a mesmice hollywoodiana.

A proposta fica clara logo na primeira seqüência. Uma câmara oscilante e freqüentemente fora de foco, como se tivesse saído de um filme experimental, mostra John Travolta (ele é o vilão de cabelinho ridículo) num discurso acusatório: "Sabe qual é o problema de Hollywood? Eles fazem merda." E disseca um final alternativo para Um Dia de Cão, filme que tem uma situação vagamente semelhante à de Swordfish. Mas esta é a única parte formalmente diferente ao que se faz todos os dias nos grandes estúdios de Hollywood, como se anunciasse que a partir dali o filme estaria entrando no jogo, porém com algumas cartas na manga.

Hugh Jackman, que depois de encarnar o Wolverine em X-Men é requisitado para todos os gêneros de filmes, interpreta o hacker bonzinho, recrutado pelo vilão Travolta. É curiosa a caracterização moral do protagonista. Ele tem um passado de contravenção, mas seu crime foi ideológico, penetrou em computadores do governo porque discordava da política anti-privacidade. Ou seja, um hacker do bem. Não espere, porém, um filme sobre informática, a escolha da profissão é incidental e a ambientação é puramente folclórica. Com exceção de uma utópica interface gráfica para geeks e de um hacker finlandês chamado Torvalds (alusão ao criador do Linux, Linus Torvalds), Swordfish passa quase todo o tempo longe do universo dos computadores.

Halle Berry, também de X-Men, é a sexy girl do filme, com direito a topless e lingerie sedutora. Don Cheadle, de Boogie Nights e Traffic, é o policial que anda farejando a trama mas não sabe bem o que está acontecendo. Vinnie Jones, de Gone in Sixty Seconds (também dirigido por Dominic Sena e com a mesma estrutura narrativa: criminoso aposentado volta à ativa para salvar um membro da família) e Snatch, é o capanga durão, habitualmente o companheiro ideal do vilão refinado.

Swordfish tem algumas soluções engenhosas, tanto técnicas como de narrativa. Na primeira categoria o destaque vai para a cena da explosão em câmara lenta, logo no início do filme. Esqueça a Casa Branca explodindo em Independence Day, a ponte de Bridge On the River Kwai, a estrela da morte em Star Wars e aquela casa de Zabriskie Point - a de Swordfish é a melhor explosão já vista nas telas. O roteiro também concorre ao troféu de melhor fuga, incluindo referência a The Sugarland Express, filme do Steven Spielberg que no Brasil ganhou o título A Louca Escapada.

Apesar de estar longe de subverter o gênero, Swordfish consegue trazer algum frescor e a saudosa sensação de não sabermos sempre o que vai acontecer. Como diz o próprio Travolta no filme, "nem tudo termina do jeito que você acha que deveria".


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