burburinho

os insultos do capitão

quadrinhos por Nemo Nox

Chimpanzés! Ectoplasmas! Baqui-buzuques! Estes eram alguns dos impropérios que o capitão bradava contra seus inimigos. Que capitão? Ora, o famoso Capitão Haddock, parceiro do intrépido repórter Tintin, personagem do quadrinista belga Hergé.

Haddock apareceu pela primeira vez no álbum O Caranguejo das Tenazes de Ouro (Le Crabe aux pinces d'or), de 1940, o nono da série. Sem que ele soubesse, seu navio levava uma carga de ópio, e Tintin aparece para desbaratar a quadrilha de traficantes. Depois de escaparem num bote salva-vidas e seqüestrarem um hidroavião, a dupla acaba caindo no deserto. E é nas areias escaldantes do Saara que o capitão se irrita com um grupo de beduínos e inicia sua carreira de criativos xingamentos. Haddock nunca mais deixaria de participar das aventuras de Tintin, e tampouco abandonaria sua metralhadora verbal.

Na boca do capitão, qualquer palavra podia tornar-se um insulto. Ele usou um vocabulário tão vasto que a editora Casterman acabou lançando, em 1991, um dicionário de pragas, Le Haddock Illustré, organizado por Albert Algoud, contendo explicações sobre os xingamentos proferidos pelo amigo de Tintin. Alguns não chegam a espantar, como "babuíno", "herege" ou "sacripanta". Outros não têm qualquer sentido ofensivo a não ser quando usados por Haddock, como "catacrese", "giroscópio" ou "logaritmo".

A criatividade nos insultos não estava somente na escolha das palavras, mas também em sua combinação. Era comum uma série de impropérios começar com "bando de..." ou "espécie de...". Haddock também gostava de inventar expressões novas para atacar seus oponentes, como "astronauta de água doce", "coruja mal empalhada" ou "Mussolini de carnaval".

Mas nenhuma mais famosa que "com mil raios" ou "com mil raios e trovões" ou ainda "com mil trovões e trovoadas", tradução do original "mille sabords". Sabords são aquelas portinholas dos navios por onde saíam as bocas dos canhões, e a expressão "mille sabords" foi muito usada por marinheiros em diversas épocas. Se esta não é criação haddockiana, porém, temos muitas outras que fazem justiça à imaginação e à cultura do capitão. Que tal "bachi-bouzouk", um mercenário do exército otomano? Ou "tchouk-tchouk nougat", que mistura doces com vendedores ambulantes do oriente médio?

Com o passar das aventuras, o Capitão Haddock foi sofrendo algumas modificações. Deixou de viajar pelos mares para se instalar confortavelmente na mansão de Moulinsart. Deixou de ser o alcoólatra incurável para ser somente um beberrão engraçado (os editores dos EUA chegaram ao ridículo de pedir, e foram atendidos, que Hergé redesenhasse alguns quadrinhos em que o velho lobo do mar leva a garrafa aos lábios). Mas numa coisa ele nunca mudou: nas explosões de insultos e impropérios.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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