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final fantasy

cinema por Nemo Nox

Final Fantasy (Final Fantasy: The Spirits Within, Japão-EUA, 2001), escrito e dirigido por Hironobu Sakaguchi, pode ser considerado um filme histórico não só por apresentar um nível de computação gráfica até agora inédito mas também por trazer um dos roteiros mais imbecis da história do cinema.

A modelagem e a animação dos personagens realmente são de uma riqueza impressionante. Texturas nas roupas, rugas na pele, sardas, cabelos, tudo colabora para aproximar cada vez mais os bonecos gerados por computador aos atores de carne e osso. Ainda não chegamos ao ponto de confundir uns com outros, mas estamos bem perto. Um dos protagonistas até lembra um pouco o Ben Affleck, até na inexpressividade. Vozes bem escolhidas (Alec Baldwin, Donald Sutherland, Steve Buscemi, James Woods) complementam bem os personagens e acrescentam o toque de interpretação que os modelos tridimensionais ainda não têm. As paisagens que servem de cenário ao filme também são espetaculares, particularmente os panoramas apocalípticos. Visualmente, Final Fantasy tem impacto.

O roteiro, porém, é um insulto à inteligência dos espectadores, uma baboseira new age que parece o resultado de terem encomendado uma história de ficção-científica a alguém como Monica Buonfiglio ou Paulo Coelho. Existem fantasmas atormentados devoradores de almas e cientistas que buscam o comprimento de onda dos espíritos, tudo embalado pela velha cantiga da força vital do planeta, Gaia (aqui, uma substância pegajosa e azulada). A história que envelopa tudo isso é basicamente a mesma de Alien, com milicos combatendo alienígenas letais. A diferença é que os extraterrestres também são fantasmas. Até os personagens estereotipados estão lá, como a marine durona, o piloto piadista e o negro que se sacrifica.

O simplismo da trama quase nos faz torcer pelos bandidos, já que na escolha entre os militaristas estilo guerra fria e os ambientalistas estilo new age, ver o planeta sucumbir aos alienígenas fantasmas nem seria uma opção tão desagradável. A baboseira é tão insustentável, que mesmo a lógica interna da história acaba desaparecendo. Seres supostamente invisíveis de repente passam a ser visíveis, sem explicação. Fantasmas podem ser mortos por armas convencionais. O material e o imaterial se confundem de forma alarmante.

Final Fantasy acaba sendo uma metáfora de si mesmo. Os atores não são atores, mas simulacros gerados por computador. O roteiro não chega a apresentar uma história, mas um cruzamento requentado de Alien com as teorias de James Lovelock (o criador da verdadeira teoria de Gaia, bem diferente da apresentada no filme). Nada é original na tela, tudo é simulação. Se os atores virtuais ainda não são tão bons como atores de verdade, este filme virtual tampouco é tão bom como um filme de verdade.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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