burburinho

planeta dos macacos

cinema por Nemo Nox

Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA, 2001), dirigido por Tim Burton, sofre de uma esquizofrenia comum no cinema dos últimos tempos. Ao mesmo tempo que se apresenta como um filme de ação e aventura e tenta cativar a platéia com isso, faz piadas sobre si mesmo e tenta não se levar a sério. Como se estivesse se desculpando.

Por vezes funciona como se você assistisse Aeroporto com pedaços enxertados de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu. Talvez por esse receio de assumir um gênero, a trama não se aprofunda em nenhum dos múltiplos temas que menciona, do preconceito racial à zoofilia. Se você busca reflexões ou metáforas, está no filme errado. O que Planeta dos Macacos oferece é uma aventura com cenas de ação e algumas tiradas cômicas.

Existem algumas lacunas lógicas que podem intrigar o espectador mais atento. Por exemplo, por que um oficial da aeronáutica desobedeceria ordens diretas para colocar a própria vida em risco? Ou como um relógio identificaria automaticamente um salto no tempo? Ou como gorilas e orangotangos evoluiriam a partir de um chimpanzé? Mas a única que poderia comprometer a credibilidade da trama é como humanos poderiam ser dominados por macacos, apesar de serem mais inteligentes, terem mais tecnologia, saberem nadar, terem polegares mais eficientes, etc. Verossimilhança, porém, não parece ser uma grande preocupação em Planeta dos Macacos, e em nome de uma aventura fluente o filme vai pedindo à platéia que deixe passar absurdos como uma nave que cai como um meteoro vindo do espaço e mesmo assim seu piloto sobrevive sem um arranhão.

Deixando de lado as ambigüidades temáticas e as impossibilidades lógicas, Planeta dos Macacos funciona muito bem como filme de aventura. Tim Burton consegue revesti-lo com seu verniz característico, graças principalmente à colaboração do designer Rick Heinrichs (parceiro também em Sleepy Hollow e Batman Returns) e ao compositor Danny Elfman (que acompanha Burton desde Pee-wee's Big Adventure). Mas se Planeta dos Macacos traz a marca visual e sonora de Tim Burton, apresenta também um protagonista bem diferente dos personagens perturbados e carentes de seus filmes anteriores, como Edward Scissorhands, Ichabod Crane ou mesmo o seu primeiro Batman. Leo Davidson (interpretado por Mark Wahlberg, de Boogie Nights e The Perfect Storm), o personagem principal, é quase unidimensional, um milico programado para cumprir uma única tarefa (fugir daquele planeta) a qualquer custo. Para encontrar alguma sutileza será preciso olhar para os símios, que inexplicavelmente são até capazes de citar Bernard Shaw ("youth is wasted on the young").

A caracterização dos macacos acaba sendo a maior atração. (E eu, inocente, sempre esperando por um filme cuja maior atração seja a história e como ela é contada.) Rick Baker, que já possui uma coleção de seis Oscars de maquiagem, aparece novamente em sua melhor forma, mas não é só pelo aspecto que a macacada convence. A postura corporal e os movimentos passam sempre a ilusão que estamos vendo símios verdadeiros e não humanos com máscaras de macaco. Principalmente graças a isso, e também a cenas de ação bem construídas, Planeta dos Macacos, mesmo deixando a desejar em outros departamentos, convence como uma boa e descompromissada aventura. O final do filme, porém, é indesculpável, um epílogo desnecessário e sem qualquer relação com o resto da história, um recurso descarado para provocar um último e leviano impacto e deixar a porta aberta para uma possível continuação. Planeta dos Macacos poderia muito bem terminar dez minutos antes e poupar o espectador desse maneirismo hollywoodiano.


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