burburinho

obsessão pela ferramenta

miscelânea por Nemo Nox

Quando me perguntam que câmara fotográfica eu uso, gosto de responder: qualquer uma. A reação é quase sempre de surpresa, já que a resposta esperada é alguma marca famosa e sua defesa incondicional.

Porque muita gente confunde as ferramentas com o que podemos fazer com elas. Claro que existem equipamentos superiores a outros por várias razões, e uma pessoa acaba se acostumando mais com uma marca que com outra. Mas já fotografei com várias câmaras, de Nikons e Hasselblads até aquelas maquinetas descartáveis compradas em aeroportos, e soube tirar o melhor que cada uma podia oferecer. O que importa é o resultado.

Com computadores acontece o mesmo. Formam-se tribos em volta de um pedaço de hardware ou de software, dos defensores ferrenhos do Macintosh, que tratam como inimigos mortais os usuários do PC, aos linuxmaníacos, que consideram os usuários do Windows a escória da humanidade. E esses sentimentos são muitas vezes recíprocos, com pequenas variações. Parece que ninguém se detém um pouco para pensar que, quase sem exceções, o que pode ser executado num tipo de computador ou de sistema operacional também pode ser executado em outro. Um texto bem formatado, uma planilha de cálculo, uma imagem bem trabalhada, aquela página para a web, tudo isso pode sair de qualquer plataforma. A escolha do que se vai usar é quase sempre de ordem prática (o que está disponível, o que é mais barato, etc) e não de valor (que ferramenta tem mais qualidade). O que importa é o resultado.

Existem questões políticas por trás de algumas dessas discussões, passando pelos perigos (ou não) de um possível monopólio ou pelas vantagens (ou não) dos sistemas de código aberto. Tudo isso deve ser debatido, é claro, mas sem aumentar ou diminuir o mérito de quem usa este hardware ou aquele software. Essa obsessão pela ferramenta tem base numa premissa completamente falsa, a de que qualquer um que use equipamento de mestre automaticamente se tornará um mestre. O procedimento padrão dessas tribos é então a defesa incondicional de determinada ferramenta, e isso inclui (pior, muitas vezes limita-se a) atacar com veemência qualquer ferramenta concorrente. Convencer alguém da superioridade da sua ferramenta traz vantagem dupla para a tribo: subentende a sua própria superioridade (afinal, eles são os super-usuários da hiper-ferramenta) e arregimenta mais um correligionário para certificar e difundir essa superioridade. Um gasto excessivo e equivocado de energia. Ninguém é melhor webdesigner por usar Macintosh. Ninguém é pior redator por usar Windows. O que importa, sempre, é o resultado.


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