burburinho

o diário de bridget jones

cinema por Nemo Nox

Se o público masculino tem os seus filmes-testosterona, repletos de tiros, explosões e perseguições automobilísticas, as mulheres contra-atacam com filmes-estrogênio, recheados de encontros românticos e príncipes encantados. O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary, França-GB-EUA, 2001) faz parte deste último grupo, e traz todos os clichês e equívocos necessários para se tornar um campeão do gênero.

A trintona Bridget Jones é insegura e atrapalhada, bebe muito e fuma muito, se veste muito mal e fala muita bobagem. Uma anti-heroína superlativa, transbordando de auto-piedade e implorando pela simpatia da platéia. Nada de errado em sugerir que pessoas comuns e sem atrativos também podem ser felizes. Mas O Diário de Bridget Jones vai muito além disso e celebra abertamente a ignorância e a dependência. O único caminho de realização pessoal aberto à protagonista é encontrar um par romântico, como se isso pudesse ser a cura para todos os seus males. Ser solteiro só pode ser um destino tão cruel porque Bridget teria que suportar sozinha sua burrice, sem uma alma solidária para partilhar o fardo.

O Diário de Bridget Jones, livro de Helen Fielding, se tornou rapidamente um best-seller fadado a se transformar em filme. O roteiro de Richard Curtis (com ajuda de Andrew Davies e da própria Helen Fielding) não chega nem perto do humor de seu trabalho mais famoso, Four Weddings and a Funeral, mas transmite com alguma fidelidade o sentimento geral do livro. A diretora estreante Sharon Maguire, vinda do mercado de documentários, conta a história sem firulas estilísticas e deixa território aberto para os atores mostrarem o que sabem fazer.

Renee Zellweger abandonou seu sotaque texano e engordou muitos quilogramas para encarnar a inglesa gorducha do livro. Em seu socorro vieram Barbara Berkery, a mesma especialista que moldou o sotaque britânico de Gwyneth Paltrow para Shakespeare in Love, e grandes quantidades de pizzas e milk shakes. Seu coraçãozinho obeso oscila entre dois galãs. Hugh Grant (de Notting Hill) é o chefe canalha e aproveitador, vilão temível na vida de qualquer moçoila casadoira. Colin Firth (de My Life So Far) é o amiguinho de infância, sem graça mas bom partido, herói previsível de romances delicodoces contemporâneos.

A carreira profissional de Bridget Jones é assombrosa. Ela pode se dar ao luxo de pedir demissão de seu emprego (um affair fracassado com o chefe não ajuda muito) numa editora, onde ela sabe quase nada sobre os livros que está divulgando, para conseguir quase instantaneamente um novo emprego agora como repórter de televisão, onde ela tampouco tem idéia do que está falando. E, claro, como em qualquer conto de fadas lobotomizante, basta uma boa dose de simpatia e boa vontade, e um empurrãozinho dos amigos, para que ela se transforme rapidamente num sucesso nacional. Não que isto importe, porque Bridget sabe que sua felicidade reside num bom casamento, não em coisas fúteis como livros ou programas de televisão. Quando muito, estas trivilialidades são somente ferramentas para conseguir um marido.

Uma gorda burra que acredita que um bom namorado pode resolver sua vida é algo tão infantil como um musculoso violento que acredita que uma explosão e alguns tiros resolvem qualquer problema. Só nos resta esperar que os filmes-estrogênio não sigam o mesmo caminho dos filmes-testosterona e comecem a se reproduzir em seqüências, ou em breve teremos um odioso O Diário de Bridget Jones II - A Missão.


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