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as aventuras de luther arkwright

quadrinhos por Gian Danton

Quando se fala em quadrinhos, grande parte das pessoas pensa em histórias infantis, fáceis de digerir e sem muito conteúdo. Se é isso que você espera de um gibi, não leia As Aventuras de Luther Arkwright.

O álbum, recentemente lançado pela editora Via Lettera, é coisa para colocar seu cérebro para funcionar. É uma leitura díficil, trabalhosa, mas profundamente original. "As Aventuras de Luther Arkwright foi minha tentativa de fazer uma aventura inteligente para adultos que fosse tão rica no texto quanto na qualidade das ilustrações", declarou Brian Talbot, o autor. "Iniciada em 1978, foi também uma reação contra a pasteurização dos quadrinhos de super-heróis mainstream da época; Arkwright tinha sexo, drogas, palavrões, vômitos etc. - hoje tudo isso soa inócuo, mas, naqueles tempos, eram coisas chocantes para os quadrinhos".

O álbum conta a história do herói Arkwright, uma espécie de agente secreto capaz de viajar entre as várias dimensões em sua luta contra os dilaceradores, representantes das forças de repressão. Nas várias dimensões pelas quais passa, a realidade é diferente da nossa. No mundo no qual se passa o primeiro episódio, por exemplo, a Inglaterra, em pleno século XX, ainda é governada pelo ditador puritano Oliver Cromwell e a oposição é representada por movimentos monárquicos. Isso deixa o leitor desnorteado. Deparar-se com um mundo em que Hitler nunca existiu e que gigantescas aeronaves são usadas pelo príncipe prussiano para aterrorizar seus inimigos é algo de entortar neurônios. Para piorar, a narrativa não é cronológica. Há narrativas paralelas e cortes rápidos, de décadas, de um quadrinho para o outro.

"Eu quis criar uma história que fosse complexa e com várias camadas, que tivesse verdadeira profundidade, que lidasse com política, religião, sexo, filosofia - coisas que passavam pela cabeça de adultos, mas estavam faltando nos quadrinhos mainstream da época - mas que também fosse uma aventura muito boa", explica Talbot. "Ela foi pensada como um tipo de quebra-cabeça mental: à medida que a história progride, as peças vão se encaixando até que o leitor começa a avançar mais e é arrastado violentamente para o clímax".

O objetivo do autor era fugir do que se fazia em quadrinhos na época e, ao mesmo tempo, fazer um gibi que tivesse erotismo, espionagem, ficção-científica e aventura. Também há um forte eco político. O ditador puritano é retratado como uma crítica a Pinochet, ditador do Chile na época. O resultado agradou o principal nome do quadrinho inglês. Para Alan Moore, autor de Watchmen e V de Vingança, "o apelo de Luther Arkwright reside em um incansável experimentalismo. Embora lúcida, a saga explora um amplo espectro de técnicas gráficas e narrativas. E o fato de conseguir essa proeza com tamanho poder visual e encantamento é um bônus excepcional. Soberbo ilustrador, Bryan Talbot fundamenta com firmeza sua complexa e mutante fantasia metafísica num sólido leito rochoso de arquitetura vitoriana traçada com maestria e panos-de-fundo meticulosamente pesquisados".

Brian Talbot é mais conhecido no Brasil pela minissérie The Nazz, em que um super-herói é tomado por seu lado negro e acaba se tornando um verdadeiro deus do mal, e por ter ilustrado algumas edições da revista Sandman. Se você quiser dar trabalho ao seu cérebro, leia As Aventuras de Luther Arkwright. Caso contrário, não diga que eu não avisei.


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